(Esse texto foi premiado no concurso histórias do trabalho , realizado pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, concorrendo com mais de 700 trabalhos)

ALUGANDO BOTAS NAS ENCHENTES APRENDI O QUE É TRABALHO...

Já se passaram mais de trinta anos. Olhando para o local, vejo que já não é mais o mesmo...nada é mais o mesmo. O canal São Gonçalo já não esta mais ali. Até o inverno já não mais igual. Entretanto, com outro olhar, encontro ali...as mesmas casas, o campinho de futebol agora ocupado pôr posseiros, alguns botequins e alguns companheiros...

Projetar na minha memória o meu passado é lembrar parte da minha infância, uma vida como um quebra-cabeças, quando pensos ter lembrado tudo mais um milhão de fatos se acumulam e me fazem de novo...viver e amadurecer.

A lembrança traz basicamente dois momentos: um bom, onde lembro os meus companheiros, voando nos sonhos da vida, no meio da pobreza...Ali jogávamos botão, futebol de campinho, soltávamos pandorgas; andávamos de carrinho de mão na areia; fazíamos alguns bicos para conseguir dinheiro para ir ao Cine Apolo, e, acima de tudo, ensaiávamos alguns sonhos de uma vida um pouco melhor. O outro é o da verdade, o da realidade ; o sonho dá lugar à vida, a vida das pessoas pobres, trabalhadoras.

Tínhamos que trabalhar de alguma forma para ajudar na sobrevivência do grupo familiar.

Nesse sentido, não tendo outra escolha, entrei para o mundo do trabalho muito cedo. Tinha eu lá , os meus sete anos de idade; vendi pastel, rapadurinha; juntei bolão..."Aluguei botas nas enchentes"...

Naquele tempo o inverno era inverno, o frio batia graus negativos várias vezes. Fazer dois, três graus abaixo zero, era coisa comum.

Nós morávamos num chalé de madeira, uma casa pequena para abrigar nove membros. Pai, mãe e sete irmãos. Naquele frio, muitas coisas nos aqueciam: dormir juntos na mesma cama , um fogão a lenha , e acima de tudo, o sonho de um dia Ter uma vida um pouco mais quente, mais confortável.

Meu pai era encanador hidráulico e , para ajudar na lida da casa levantava às cinco horas da manhã para buscar leite no entreposto: fazer as mamadeiras ao gosto de cada um. Depois saía para o seu trabalho numa bicicleta velha, cedida pela firma.

Quando nos trazia a mamadeira , se dava um diálogo que se repetia quase todos os dias:

__ Paiê como é que tá hoje ?

__ Paiê tem gelo ?

Na nossa rua, naquele tempo, ninguém tinha geladeira ou televisão. Gelo só se conhecia em barra grande, comprada na fábrica de gelo, e isso, era em caso de festa grande, casamento, churrasco no Naoli, etc. Ah ! ou quando o frio era rigoroso, que petrificava a água nas vasilhas que deixávamos na rua para fazer gelo.

Era comum, também, quando ele respondia que tinha gelo ou que a geada tinha sido muito grande , nós levantarmos para olhar...e, como guris de vila, ficávamos perambulando na volta de um solzinho que muito tímido custava a aparecer. E ali ficávamos olhando os pássaros, o campinho os trabalhadores irem para o serviço e os outros vizinhos acordarem, para, então dar curso à nossa história.

Moro em Pelotas e minha cidade até hoje sofre com os problemas de enchentes. Naquela época a situação era bem pior. A cidade é margeada pelo canal São Gonçalo que desemboca na Lagoa dos Patos. Um braço desse canal cruzava a nossa cidade pela metade. Era o Canal Santa Bárbara.

A cada cindo quadras existia uma ponte , algumas de ferro e as demais de madeira de qualidade muito precária. Quem morava da Rua Osório para o lado dos Bairros Simões Lopes e Fragata, para irem ao Centro da cidade , tinham que atravessar uma dessas pontes.

O problema ´é que a cada inverno havia "enchentes" mudando o quadro da realidade dessas pessoas, que precisavam atravessar essas pontes para irem trabalhar. A cada inverno era uma loucura ,sempre tinha enchente e com ela uma série de preocupações , quer com o aumento muito grande das águas e a perda de bens materiais, quer para se deslocar para o trabalho.

Para nós, guris, a enchente se tornava motivo de folia, de festa, de brincadeiras. A cada dia levantávamos com novas expectativas: a água subiu ? desceu ?

Esses períodos de enchentes duravam dez, quinze , vinte dias dependendo se o inverno era mais ou menos chuvoso.

Uma grande parcela dessas pessoas trabalhavam no comércio e não tinham "botas". Não Ter botas nesses períodos de enchente significava não ir trabalhar, ou enfrentar aquelas águas sujas e gélidas, do braço morto do Canal Santa Bárbara. A vida não possibilitava que o trabalhador se desse ao luxo de discutir com o patrão, dizendo que não foi trabalhar por causa da enchente. Assim era a realidade: era preciso tirar o sapato, suspirar fundo, colocar os pés no frio, atravessar as águas, secar os pés e ir à luta novamente. Isso se dava quatro vezes ao dia: manhã, no horário do almoço , ida e volta e à tardinha.

Nós, como guris encarávamos de frente aquela situação, ou seja, se tinha enchente lá estávamos nós de pés descalços andando no meio da água.

Meu pai , como já falei era encanador e como encanador tinha um par de botas de borracha. Diga-se de passagem que essa era parte de seu patrimônio, uma bicicleta, um par de botas, uma casa popular do SESI e uma grande família. Pôr tudo isso, ele e minha mãe tinham que dar duro para manter o sustento de todos nós.

Lembro também, que uma das coisas que mais gostava era usar as botas de borracha do meu pai. Não me lembro o número, só sei que era grande. Depois de encher muito, pedindo para usar um pouco as botas, ele não resistia e cedia. Podia usar um pouco antes dele sair para o trabalho.

E lá ia eu, de calção curto, camiseta e um casaco bastante maneiro, e de botas é claro. Ficava cheio de razão. Acreditava que usando as botas dele me sentia como ele...Eu com sete anos , magrinho, pequeno com o pé do mesmo tamanho...mas com as botas...as botas do meu pai. Ah ! Num primeiro momento as botas se tronavam um símbolo de status, uma vez que a grande maioria não possuía botas. Quanto mais cedo eu levantava , mais tempo podia ficar com suas botas.

E lá ia eu arrastando as botas no meio das águas, daquelas águas que faziam parte da história de milhares de trabalhadores, principalmente dos trabalhadores pobres. A enchente fazia parte daquele cotidiano a cada inverno que passava.

Batiam seis horas da manhã e, enquanto meu pai buscava o leite no entreposto no lado inverso ao da enchente , eu saía com sua botas. Esse era o horário, também que as pessoas começavam a se movimentar para ir para o trabalho, a grande maioria no centro da cidade. O desafio era enfrentar a água suja e fria da enchente.

Conhecia quase todas as pessoas, pelo nome , pelas suas casas, pelos seus filhos, pelos seus trabalhos. E eles também sabiam quem eu era. Era filho do seu Manoel e da dona Irene.

Lembro também que muitos se indignavam com aquela situação: como pode um pai, uma mãe deixar o filho andar naquele frio, naquela hora ? Hoje sei, guri de vila é assim mesmo.

Sempre fui ma pessoa sensível com as coisas da vida. Num desses dias, andava eu caminhando no meio da água, quando uma senhora que trabalhava no comércio, não me lembro quem, fez uma pergunta que mudou também os rumos de minha vida. Deu-se mais ou menos o seguinte diálogo:

__Bem que tu poderias me emprestar as botas para eu atravessar.

__Eu disse: emprestar eu lhe empresto. Quanto é que a senhora me paga ?

Ela disse-me : Mesmo que tu me emprestasses, agora, não vai adiantar muito, pois ao meio-dia vou precisar de novo e vou ter que pisar na água. Se tu conseguisses ficar com as botas eu conseguiria outras pessoas para te pagarem , também...

Até aquele momento eu não pensava na questão econômica, pensava em questões de guri.

Como eu era metido, considerado vivo pelos que me rodeavam, falei primeiro para mãe e disse que conseguiria dinheiro "emprestando/alugando as botas". Com muito custo, muito custo mesmo, conseguimos convencer meu pai a deixar as botas. Eles só deixaram porque sabiam que eu metia a cabeça e o coração naquilo que fazia.

E assim foi. Cedi as botas para aquela senhora naquele dia. No outro tinha cinco, dez, vinte...pessoas usando as botas para atravessar a enchente. Não havia valor estipulado, cada um dava o quanto podia.

Se constituía, ali, "o aluguel de botas". A pessoa tirava o sapato, calçava as botas e eu ia do lado levando o seu sapato. Ela de botas e eu de pés descalços , na água.

A vida na pobreza nos ensina muitas coisas, entre elas o exercício da solidariedade, da humildade...da vida.

Num dia qualquer , de uns trinta anos atrás, de um inverno muito frio no sul do País, nos meses de julho ou agosto, no exercício da vida, criei " o aluguel de botas".

Dada a nossa condição de vida, nunca conseguimos comprar outro par de botas de borracha, pois a enchente durava muito ou pouco, dependendo da concepção de cada um. Na nossa concepção a enchente se constituía numa maneira de ganhar algum dinheiro para ajudar em casa. Para aquelas pessoas, trabalhadores, estudantes, donas de casa que precisavam atravessar a enchente, um ida a mais pesava também no orçamento familiar.

Após esse inverno, muitos invernos levantei cedo e coloquei meus pés nas águas sujas e geladas do São Gonçalo. Apesar das condições adversas, nunca fiquei doente...uma condição da pobreza...talvez !

A realidade, a ficção a obrigação o sonho se entrelaçavam a cada dia que passava. Uma coisa era muito real , a minha família sobrevivia m pouco melhor a cada inverno que passava.

Como todo comércio , veio a concorrência, surgiram outras botas...

Pioneiro nesta jornada, já havia consolidado meu grupo de trabalho, com o qual convivi muitos e muitos invernos.

Hoje naquela rua não tem mais enchente, mas têm as casas, parte do campinho e alguns companheiros...Cada vez que vou lá sinto em cada canto, em cada conversa, um pouco da minha história. Sempre que vou lá, resgato meu passado.

Ao me remeter ao passado, me projetei a um momento muito significativo de minha vida, pensei nos meus companheiros, na lembrança de um tempo muito difícil, de pobreza material, com o qual quase todos nós vivíamos. Lembrei-me também, dos momentos de sonho e construção , partilhado a cada dia, com algumas pessoas e entre elas meus irmãos, meu pai – falecido e minha mãe.

Esse resgate de parte da minha vida história me calou fundo. Bateu no mais bobo do meu coração e eu tentei resistir a algumas lágrimas...pela emoção da lembrança , pelo que somos hoje...

Nesse momento me veio à lembrança da música do Gonzaguinha " O homem também chora , menina morena, também deseja colo, palavras amenas...O homem sem trabalho não tem a sua honra e sem a sua honra se morre , se mata e não dá prá ser feliz."

Hoje caminho outros mundos, realizo outros trabalhos...Numa visão de quem passou trabalho nesse mundo, continuo sonhando com um mundo justo e humano para a grande maioria e não para uma pequena minoria.

As botas de borracha se constituíram em alicerce na minha história e na história da minha família.

Nunca mais necessite usar botas de borracha.

e-mail: nogueira@radar-rs.com.br

Jairo Dias Nogueira

Professor Universitário

Agosto de 1996