CERNE DA NOGUEIRA

É agosto...Não sei se lá prá cima do País é que nem aqui no sul, o mês de agosto senão chega a meter medo, às vezes apavora. Alguns tentam entender a vida jogando a culpa no mês. Talvez isso nos ajude um pouco a compreender a transcendência temporal porque passou meu pai, meus irmãos, Francisco e Maneca, Andrey, o pai da Tânia Seu Januário e Aquelino, pai do Osmar...entre tantos outros...

Dentro desse emaranhado de coisas me recordo a infância pobre, sofrida, marcada como ferro em fogo. É capitalismo puro, selvagem, covarde , algoz demais para quem só queria viver bem.

O que seria a vida ? se não fosse uma vontade louca e diferente de fazer as coisas, e uma consciência mesmo que ingênua a nos mostrar que o nosso socialismo se dava na divisão social da pobreza.

Viviam ali, naquela vila, várias famílias de trabalhadores . Um chalé com cinco peças (a nos pregar peças) , chamada Vila do SESI. Ali , se construía e se destruía destinos, ali se sonhava as utopias e se lamentava os pesadelos das enchentes e temporais...e das demais agruras de ter que manter , sustentar um grupo de nove pessoas, pai, mãe e sete filhos, seis homens e uma mulher. Vários são os protagonistas dessas histórias forjadas na luta cotidiana pela sobrevivência digna. Esse cenário se reveste numa concreção inigualável de quem busca compreender aquilo que nem sempre é compreensível , entender os meandros da vida e da morte.

Mesmo sabendo das limitações de fazer uma construção abstrata mas essencialmente tendenciosa, quero destacar dois nomes, duas histórias de vida e de trabalho (ou dialéticamente uma só) do meu pai e de minha mãe.

É pura pretensão querer escrever fragmentos da vida de um separada da do outro...uma casa, filhos, trabalho, muitas dificuldades, dentre elas, manter a educação o diálogo e a sobrevivência mais digna possível daquela gurizada.

Meu pai levantava cedo, ia no entreposto buscar leite, fazia as mamadeiras, cada uma com um gosto diferente , preparadas numa garrafa pequena de pepsi-cola, atendia com paciência as reclamações e representações que nós fazíamos, depois dava curso a sua história , ia trabalhar de encanador, nas firmas Azeredo e Balbi. Inverno frio, várias vezes o termômetro batia graus negativos. Não havia doença , não havia faltas , não havia tempo ruim, ou melhor não podia haver. Havia, isso sim, uma família inteira para sustentar. E lá ia ele, sem amargura , sem lamúria, como quem ia cumprir parte do seu destino. Ao menos não cabia a nós interpretar seus anseios, dificuldades e percalços, éramos pequenos demais. Aos domingos, não deixava de sair...o grupo é grande, não importa, como acostumado no fordismo, arrumava os filhos em série, os maiores ajudavam os menores, íamos na casa da vó, para o laranjal. Na volta, quase sempre dois ou três cansavam, e ele tinha forças para trazer um em cada braço, quando cansava, uma parada no bar do Boneco na Marechal Deodoro, era o tempo para tomar uma pura e uma garrafa de água mineral. Nós é óbvio, queríamos guaraná frisante. Quase nunca era possível, o valor do trabalho recebido não possibilitava essas ousadias. Domingo também era dia de café da manhã e família, duzentas gramas de mortadela (cortada ao meio) e dois pães cacete de um quilo cada. Numa casa em que se consumia um quilo de feijão por dia domingo podia variar, arroz salada e carne .

Ah ! Domingo prá ele era dia de reverenciar os mortos, saia pela manhã, convidava um ou outro para ir ao cemitério, limpar o túmulo dos pais dele ( e que também será nosso ), levar flores e rezar. Com ele aprendíamos que a paz reside naquele lugar. Á noite dava lugar às missas do Padre Ozy Fogaça. Hoje compreendo, eram os locais onde os pobres podem passear. Ele se reabastecia com tudo isso.

Durante a semana , após o trabalho, ele elegia um botequim da vida para refazer a outra parte da história. Passava por lá, tomava um ou dois "martelos" e ia para casa. Sóbrio, mas preocupado com o futuro dos filhos, ele reproduzia suas preocupações nem sempre compreendidas por nós. Pequenos, buscávamos seu colo, com pouco espaço para tantos filhos. Como disse, eu não tinha alcance para compreender a intencionalidade de sua fala. Hoje compreendo, ele tinha medo da doença, da morte (como pode um pai adoecer ? morrer ? o que será dessa gente que precisa do "meu trabalho" ? ).

Quem vive sobre o acalanto da vida , quem tem amor pelos filhos, não tem muito tempo de ficar pensando nisso. Ao deitar, ele nos ensinava a rezar...e todos nós dormíamos. Quis a vida que ele partisse no dia de São Pedro. Esse era o seu pedido, sua premonição. Negou-lhe a vida poder ver seus filhos em melhores condições econômicas, negou-lhe a vida poder partilhar das nossas conquistas e alegrias. Olhar em qualquer direção nos aponta prá ele. O silêncio da lembrança é presença e ausência.

Minha mãe esta aqui. Ainda continua forte como um cerne de Nogueira. Mulher inteligente , valente batalhadora, guerreira a maior contadora de histórias . Quis a vida lhe dar o dom do bem querer. Quis a vida lhe ensinar as grandes alegrias...e as piores tristezas. Muitas vezes, como o trigo no campo, se curvou, dando lugar aos ventos tempestivos que forçavam as madeiras do chalé e da própria vida. Na vida tem feito quase tudo, foi enfermeira , costureira, cantora, foi boleira e salgadeira, foi timoneira nos rumos da família. Declinou poucas vezes quando as coisas mais fortes da vida lhe cobravam a provação e aí seus olhos percorriam os horizontes buscando o porquê. O coração clamava e permanecia forte como que dizendo: há muita coisa para fazer...Na vida poucas pessoas tiveram coragem, dignidade humildade para ensinar e aprender a viver, e como diz o poeta: " viver e não ter a vergonha de ser feliz". Agosto de 2000 , forte reflexivo, nos mostra que a temporalidade existe no meio de nós, o vento frio do minuano, as geadas fortes que branqueavam os cerros... se fez novamente presente ! Para lembrar as lutas, a vida e o trabalho de quem fez, quem faz a história da vida acontecer, hoje em nós, como cernes de Nogueira.

Jairo Dias Nogueira

Agosto de 2000

(Texto premiado no concurso e editado no livro Histórias de trabalho, promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre)

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