DIAGNÓSTICO EM SERVIÇO SOCIAL A NÍVEL DE COMUNIDADE:

PERSPECTIVA DE AJUSTAMENTO SOCIAL   E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

 

 

 

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PELOTAS

ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL

DISCIPLINA DE DESENVOLVIMENTO DE COMUNIDADE

PROFESSOR JAIRO DIAS NOGUEIRA

 

( OBS: Este texto é uma síntese para trabalho em sala de aula, portanto, não desobriga momento algum a leitura do texto por inteiro Revista Serviço Social e Sociedade nº 04 – p. 119/149 )

 

ELIZETE CARDOSO *

 

INTRODUÇÃO

                No Serviço Social, o termo diagnóstico vem sendo conceituado por diversos autores com interpretações variadas. Alguns baseiam-se em sua etimologia, outros afastam-se dela, definindo-o como uma interpretação, uma descrição ou explicação de uma situação ou de um sujeito ¹ ou, ainda, como tentativa de compreensão da realidade.

                Há, no entanto, insuficiência de estudos que esclareçam, com maior precisão e [1]profundidade, os aspectos teóricos e metodológicos do diagnóstico em Serviço Social a nível da comunidade.

                Este trabalho constitui uma tentativa de abordagem do tema numa perspectiva crítica, tendo como escopo fornecer elementos para novas discussões e estudos em torno dos discursos correntes na literatura do Serviço Social.

                Pode-se observar mediante o estudo das tendências de conhecimento e ação do Serviço Social, frente à realidade social, fundamentações distintas originadas nas grandes correntes metodológicas, segundo as orientações funcionalistas empiristas, de um lado, e histórico-estrutural, de outro. Os conhecimentos e as ações se diversificam em decorrência destas distintas orientações teórico-valorativo, procedimentos metodológicos e objeto de conhecimento e ação.

                De acordo com Carlos Boggio,² o conceito de diagnóstico no Serviço Social está relacionado intimamente com o próprio Serviço Social, que se vem reformulando historicamente. Segundo a concepção clássica do /serviço Social como  

    tecnologia, o diagnóstico é considerado um a etapa do processo de planejamento linear da ação, antepondo-se à programação. Apresenta uma listagem bastante exaustiva de dados dos mais variados aspectos com vista a identificar uma determinada realidade. Neste caso, a postura que tem orientado o diagnóstico caracteriza-se pela influência das disciplinas terapêutica e pelas perspectivas metodológicas empirista e funcionalista. Cabe ao assistente social, dentro dessa orientação, julgar aquilo que constitui problemas ou necessidades da clientela. Essa postura se vincula a uma perspectiva de adaptação e ajustamento social.

                O diagnóstico em Serviço Social a nível de Comunidade, conforme se apresenta em alguns posicionamentos mais recentes, constitui-se num componente inerente a própria ação e tem como características:

Fazer parte de um processo desenvolvido pela população residente na comunidade-área de atuação do Serviço Social, tendo o Assistente Social como co-participante; é um processo desenvolvido conjugadamente pela população e profissional, não sendo, predominante, uma fase do método utilizado pelo Assistente Social; Os aspectos da realidade a serem estudados são determinados pela população sujeita do processo; A interpretação da realidade da comunidade local vincula-se com a sociedade global, situada e datada historicamente;

              O diagnóstico, como toda a prática nessa perspectiva se dirige para fins de transformação das relações sociais.

Nesta concepção de transformação social o diagnóstico constitui-se em etapas sucessivas e aproximativas da realidade, vivenciadas de forma conjunta pela população e o profissional de Serviço Social, e é orientado pela perspectiva metodológica histórica-estrutural.

Nas formulações a nível de Comunidade, campo de atuação ³ do Serviço Social, são observadas ambas as tendências referidas acima, com características bipolares acentuadas. A primeira decorrente da influência norte-americana e a Segunda produto do movimento de reconceituação latino-americano. Essas duas tendências do Serviço Social serão denominadas nesse trabalho de “ajustamento social” e “ transformação social” respectivamente.

Na América Latina , apesar da influência marcante dessas propostas, verifica-se, a partir da década de 60, a presença de uma nova alternativa de prática, deslocando o pólo de intervenção da disfunção social  para a proposta de transformação das relações sociais. O conceito de comunidade nesta perspectiva se modifica , nega a identidade de interesses, salienta o interesse de classe, os conflitos e as contradições, considerando-os como força motriz para a transformação social

O diagnóstico em Serviço Social de comunidade, em qualquer dessas vertentes , dá-se através  da relação do Assistente Social e a realidade da comunidade- base.

 Nessa relação profissional x comunidade o momento  em que predomina o conhecimento denomina-se classicamente de diagnóstico. O diagnóstico é uma construção, ou seja, uma produção de conhecimentos e significa um processo de reflexão na realidade social, área de atuação , integrando o fazer profissional. Essa prática de produção de conhecimentos tem uma estrutura que lhe dá o caráter de totalidade e consiste num conjunto de elementos interdependentes  e que constituem uma unidade: referencial teórico-valorativo, procedimento metodológico e objeto de conhecimento e ação.

O referencial Teórico-Valorativo compreende os conceitos  que auxiliam na interpretação da realidade social; estes estão impregnados  de conceitos valorativos, de natureza ético-normativa  e ideológica. Tais pressupostos fundamentam os Assistentes Sociais na sua atuação e, especificamente , no diagnóstico, seja na definição dos aspectos a serem estudados , no procedimento adotado para a sua análise  e na própria interpretação da realidade.

Os Procedimentos  Metodológicos  consistem num conjunto de passos ou regras que orientam a formulação do diagnóstico em Serviço Social a nível de comunidade ou nos momentos de aproximativos  da realidade social que configuram o processo de conhecimento e ação.

Por Objeto de Conhecimento e Ação compreende-se um conjunto de fenômenos sociais determinados  ou que emergem na relação entre o Assistente Social  e população de uma área  específica de atuação. Poderá se constituir em categorias preestabelecidas a serem identificadas na realidade social  ou em categorias  a serem configuradas no decorrer da ação.

O Documento de Araxá , de uso corrente  no Brasil , explicita esta postura  quando enuncia os postulados e princípios que fundamentam a ação do Serviço Social.

Postulados:

a)       postulado da dignidade  da pessoa humana: que se entende como uma concepção do ser humano  numa posição de eminência ontológica  na ordem universal e ao qual todas as coisas devem estar referidas;

b)       postulado da sociabilidade  essencial  da pessoa humana: que é o reconhecimento  da dimensão social intrínseca à natureza humana e, em decorrência do que se afirma , o direito de a pessoa humana encontrar na sociedade, as condições para sua a auto-realização.

c)        Postulado da perfectibilidade humana: compreende-se como o reconhecimento de que o homem é, na ordem ontológica , um ser que se auto-realiza no plano da historicidade humana , em decorrência do que se admite a capacidade e potencialidades naturais dos indivíduos, grupos , comunidades e populações para progredirem e se auto promoverem.

 

Princípios Operacionais:

 

a)       estímulo ao exercício  da livre escolha e de responsabilidade de decisões;

b)       respeito aos valores, padrões e pautas culturais;

c)       anseio à mudança nos sentido da auto-promoção e do enriquecimento do  indivíduo, grupo , da comunidade , das populações;

d)       atuação dentro de uma perspectiva de globalidade na realidade social.



[1]SENI SANS, Quitero. El Diagnósticos Social, Buenos Aires, Hvmanitas, 1974, p. 25rf

   

AS INTERPRETAÇÕES DA SOCIEDADE DADAS PELA TEORIA SOCIAL CONTEMPORÂNEA,

TENDEM  CONSCIENTEMENTE  OU NÃO  A ADOTAR DOIS PRINCIPAIS MODELOS: FUNCIONAL OU DIALÉTICO

 

MODELO FUNCIONAL -  O modelo funcional é herdeiro do pensamento de Comte e mais imediatamente do positivismo que o caracteriza como linha central do pensamento anglo-americano contemporâneo. Talcott Parson, em sua obra em 1949 a 1960 que estruturou teoricamente o funcionalismo como um modelo que explicasse o funcionamento da sociedade.

Essa obra foi aprimorada por Kingsley Davis com as melhores funções, e formulações sintéticas do modelo. Trata-se , segundo Davis de explicar a regulamentação social dos meios escassos. Como as necessidades do homem não sejam imediatamente atendidas pela natureza, mas exijam o emprego de alguns meios para a sua satisfação. E atendendo ao fato de que os meios são relativamente escassos, o uso destes é sempre regulado por um determinado regime, o regime de propriedade. Esse sistema tem como pressuposto a não violência arbitrária, mas o sancionamento apoiado pela força de valores culturais da sociedade, aos quais gozam do consenso de seus membros.

 

PRESSUPOSTOS VALORATIVOS: DO FUNCIONALISMO

* Humanismo fundamentado no sentido de orientar e nortear a realidade.

* Universalidade dos valores, aplicados e aplicáveis em qualquer realidade social.

* Neutralidade ideológica e prática apolítica. Atuação sobre a realidade aceitando os valores vigentes.

* Procedimentos distintos entre o profissional e população.  Valorização  dos conhecimentos técnicos-científicos  em detrimento do  reconhecimento dos valores da população.

* A técnica do profissional tem papel importante para orientar as ações e decisões da população.

* Concepção abstrata de sociedade, equilibrada e harmônica. Suposição de igualdade e oportunidades para todos.

 

CONCEPÇÃO DE SOCIEDADE

“A sociedade é regida por uma ordem funcional, onde cada componente contribui de uma maneira particular para  o funcionamento social”

 

CONCEPÇÃO DE CLASSE SOCIAL OU ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

“Sendo a sociedade uma realidade social  à base de papeis correspondentes às ocupações funcionais dos indivíduos, a estratificação é uma estrutura integradora dentro do sistema social que tem o papel de ordenação das relações humanas”.

 

CONCEPÇÃO DE CONFLITO

“Cada parte opera em conjunto com as demais com grau suficiente de harmonia, equilíbrio e integração, onde os conflitos e as disfunções podem ser regulados e controlados. Esta unidade está baseada numa ordem moral, onde a existência de um núcleo de valores compartilhados gozam de consenso geral”

 

CONCEPÇÃO DE ESTADO

“O papel do Estado consiste em atuar como árbitro dos conflitos em nome de toda a sociedade. Tem posição eqüidistante dos interesses  particulares em conflito, atua como representante dos interesses sociais da sociedade”

  

CONCEPÇÃO DE PROCESSO SOCIAL

“O processo social se dá mediante movimento circular em torno de uma posição central de equilíbrio, que provoca pequenas  mudanças de ordem setorial, as quais vem reforçar este equilíbrio - espontâneo gerado pelo acordo básico - consensual.

 

RELAÇÃO TEORIA E PRÁTICA

“Dicotomia ente ciência e prática. Ao cientista compete explicar a realidade social ou elaborar   pesquisas...aos profissionais de áreas específicas cabe atuar sobre ela”

 

Na concepção funcionalista a sociedade tem dupla função: criadora e coebidora

 

Criadora: oferece recursos para satisfazer as necessidades dos indivíduos.

Coebidora: proíbe dentro das normas

 

 A visão de homem uma dualidade, ou seja, um lado bom, outro ruim, o ambiente é que vai estimular essas características. O indivíduo é determinado por uma herança genérica, que ele herda pela bagagem que traz.

 

PARTICIPAÇÃO: O desempenho de papéis , o cumprimento de funções é que vai determinar as participações dentro da sociedade.

PARTICIPAÇÃO ATIVA: Processos decisórios através dos canais próprios do sistema (voto, partido político...) Processo produtivo: consome e produz.

 

PARTICIPAÇÃO PASSIVA: Participa apenas no processo produtivo, apenas colabora na produção.

Para o bom andamento do sistema é necessário que todos participem ativamente do processo produtivo. O oposto , a não participação , gera a marginalização.

Quando os indivíduos, grupos e ou instituições não desempenham adequadamente a sua função, existe uma DISFUNÇÃO.

A disfunção implica no desequilíbrio do sistema, sua correlação implica mudança na situação vigente.

 

 

  

 

PERSPECTIVA DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

 

PRESSUPOSTOS VALORATIVOS

  

Humanismo fundamentados no sentido da transformação  da realidade.

Determinação histórica dos valores decorrentes da estrutura social da qual  

 emergem.

Concepção de homem como um ser que é práxis, o reconhecimento da sua Dimensão histórica e transformadora do mundo.

Compromisso com a práxis, ação e reflexão sobre a realidade.

A inserção e o engajamento na realidade, implica em conhecimento crítico da 

 mesma.

Valorização similar entre os procedimentos do profissional e população, ambos 

 são manifestações culturais, ambos são válidos, dentro do seu marco de  

 referência. Importância dos procedimentos da população.

  

CONCEPÇÃO DE SOCIEDADE - Concepção de uma sociedade concreta e determinada historicamente em constantes transformações, geradas pelas contradições e lutas entre as classes sociais antagônicas. Domínio de uma classe sobre a outra.

 

 

VISÃO DE SOCIEDADE - A sociedade é constituída por um conjunto de relações de produção, a base no qual se levanta a superestrutura jurídico política - formas de consciência.

 

 

CONCEPÇÃO DE CLASSE SOCIAL OU ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL -  A vinculação entre a base econômica e a superestrutura é estabelecida pelas classes sociais, constituída historicamente. O conflito é entendido como luta dos contrários numa perspectiva histórica, como elemento definidor e impulsionados do processo social.

 

 

CONCEPÇÃO DE ESTADO - O controle do poder de produção e do poder do Estrado pela classe  fundamental e a conseqüente implementação de sua ideologia, indicam a sua dominação sobre as classes subalternas”

 

 CONCEPÇÃO DE MUDANÇA SOCIAL -

 Quantitativa - lenta , gradual , imperceptível

 Qualitativa - brusca, rápida, visível