Vida....trabalho, lembranças e ervilhas  

 

 

                                    Passei lá, olhei as casas, vi o campinho,  lembrei-me das ervilhas. Já se passaram mais de trinta anos e o passado permanece na memória. Isso ocorreu comigo em Pelotas, cidade onde nasci e moro até hoje. As  casas, são as primeiras casas populares para trabalhadores. São conhecidas como as  vinte e cinco casinhas do SESI. Perfilados lado a lado, cada chalé de madeira pertencia a uma família... famílias pobres de trabalhadores , moravam em média famílias de sete a  nove pessoas em cada casa, distribuídas em dois quartos , sala, cozinha e banheiro. Cada uma  delas , uma história, individual e coletiva. A vida na pobreza nos relega muitas coisas , dentre elas o ato da solidariedade.  Solidariedade pela necessidade.

 

                                    Um rio, uma ponte de madeira, uma rua sem calçamento , uma árvore bem no meio da rua defronte a casa do Seu Fermino,  e um local atrás das casas, que chamávamos de campinho. Uma realidade urbana num contexto rural no centro da cidade. Naquela vila, todos se conheciam , pelas casas, pelos filhos, pelo trabalho exercido. Não foi  por acaso que ali foram construídas estas primeiras casas populares. Ao redor delas estavam , também três grandes indústrias de alimentação: a Naoli e a Olvebra ( processadoras de óleos vegetais) e a Leal Santos (alimentação ) além de outras pequenas indústrias circundantes ( hoje  quase todas fechadas).

 

                                    É nesta vila, neste contexto, que trilhamos mais uma história de trabalho e de vida. Tenho  hoje quarenta anos de idade; nasci em agosto, na rua Tiradentes e já ao nascer, precisei apanhar um pouco mais do que meus irmãos. Ajudado pela parteira ficou na minha cabeça uma pequena mancha que me acompanha. Se for otimista, posso dizer que estou na metade da vida. Ao lembrar o passado, viajando  no tempo da minha memória... ah ! uma das coisas boas é que não preciso forçar muito a minha memória para lembrar da minha construção de vida. Hoje posso dizer que com quarenta anos, fui do tempo do fogareiro primo, do rádio a válvula, dos lampiões a querosene, do Sagrado Coração de Jesus, do Cine Apolo, do Bar Babi, das brincadeiras e músicas de roda, do biloquê, das fogueiras de São João, do cinema do SESI, passado na rua. Quantas vezes vi minha avó e minha mãe escutando novela de rádio ? Quantas vezes comemos café com farinha?  Isso tudo é um passado vivo e gostoso nas nossas lembranças...São elas,  as vivências solidificadas e socializadas,  que se constituem como base no decorrer da nossa história.

 

                                    Há alguns anos atrás, o inverno era inverno, o frio batia a casa do zero grau seguidamente. Enchente, geada forte que branqueava os campinhos eram uma constante. Como se sabe , trabalhador com muitos filhos tem que levantar cedo. Assim ocorria na nossa casa. Meu pai era encanador e para garantir o sustento de nove pessoas, sete filhos , mais ele e minha mãe, sabia que tinha que dar um duro danado. A noite dava lugar ao dia e  as cinco horas da manhã  ele levantava. Ia no entreposto buscar leite. Enquanto preparava as mamadeiras de cada um, estava ligado na Rádio Cultura, ouvindo o Tufy Salomão. Lembro-me como se fosse hoje: o Tufy dava as notícias, o horário e a temperatura. Acordávamos ouvindo - canta galo...canta !. Depois algumas músicas regionais, mandava abraços para  uns e para outros...muita gente escutava o Tufy naquela época, meu pai escutava  até o horário de ir para o serviço. A mãe trabalhava fora ou ficava em casa costurando, fazendo salgadinho por encomenda, fazendo injeção ou outra coisa que desse uma renda a mais para o nosso sustento

 

                                    Não sei porque guri de vila levanta cedo. Algumas vezes a gente levantava para ver a geada, para ver se tinha gelo nas vasilhas que deixávamos na rua, e depois ficava à espera de um solzinho e à espera de que a geada baixasse para jogar bola no campinho ou para fazer outra coisa. Calça curta, pés descalços, cabeça raspada com máquina de cortar cabelo número zero, (a mãe fazia o serviço em série, afinal, nós éramos seis homens, guris em  casa) só ficávamos com uma franjinha. De lambuja, ela cortava o cabelo de alguns colegas também.

 

                                    Como já disse, atrás das casinhas tinha um campinho e no campinho, no inverno,  tinha umas três ou quatro vacas, as vacas  do seu Alcides. O seu Alcides gostava muito das vacas e também de nós. Ele sabia que nós éramos  das casinhas, mas não sabia os nossos  nomes. Devido às geadas fortes que queimavam o capim, as vacas do seu Alcides não tinham muito o que comer. Além disso , volta e meia a gurizada resolvia implicar com as vacas , tentando tirar leite, amarrando algum objeto nas colas delas  ou espantando as vacas para outro lugar. É obvio , que o seu Alcides ficava indignado, além de se preocupar com suas vacas , tinha que se preocupar com um bando de guris que “não tinham nada prá fazer”.

 

                                    Foi neste momento de conflito que surgiu uma solução inusitada para os dois  lados. Para dar  alimento às vacas,   seu Alcides buscava cascas de ervilha na fábrica de alimentos Leal Santos. Ao observar as vacas comendo, nos demos por conta de que no meio das cascas vinham algumas ervilhas. Surgiu então a  negociação: seu Alcides, deixa gente pegar as ervilhas ? Se vocês deixarem as vacas comerem as cascas  e não judiarem dos animais, podem. Assim, começamos a exercer uma atividade/trabalho que passou a ajudar no sustento das nossas famílias: “catar ervilhas”. No início éramos dois , três;  logo em seguida, éramos dez, quinze...todos ao redor dos montes de cascas,  juntando grão por grão das ervilhas trazidas da fábrica. A quantidade variava , meio quilo, um quilo. Isso forçava também a solidariedade e o trabalho do seu Alcides , que era solicitado a buscar com sua carroça mais cargas de cascas de ervilha.

 

                                    Não sei se é negação. Forço a memória e,  sinceramente,  não consigo lembrar quantos invernos catamos ervilhas. Lembro sim, que aquele trabalho de catar ervilhas contribuía para ajudar o sustento da nossa família. Tempos difíceis, família grande, nós consumíamos um quilo de feijão por dia, mais um tanto de arroz. No inverno tínhamos arroz, feijão e ervilha. Com elas , minha mãe e minha irmã elaboravam uma série de pratos , tantos quanto  uma estrutura pobre comporta (ervilha refogada, arroz com ervilha, sopa de ervilha, pastel de ervilha e muito mais...) Todos os invernos de trinta anos atrás daquelas famílias das casinhas do SESI  guardam esse momento: catar ervilhas. Ao ficar agachado , naquele frio, dois  fatores nos aqueciam: a esperança  de um dia não precisar  mais daquela  realidade, e ao mesmo tempo ficar contente por  ter algo diferente para comer. Dali saíamos para outros tipos de trabalho, ajudar a colocar tijolos para dentro das casas, juntar bolão  para os trabalhadores do Naoli na saída do trabalho, vender pastel , rapadurinha e estudar no outro turno. Uma das coisas fortes do tempo de guri de vila é que nós  éramos   resistentes às doenças (andávamos de pés descalços na geada e nas águas sujas do Arroio Santa Bárbara gripe, doenças de pele, nem pensar), moleques por natureza ( a gente estava sempre inventando alguma coisa para fazer:  carrinho de rolimã, jogo de bolinha de gude, pandorgas , jogo de botão de mesa, entre tantos...) , trabalhador por necessidade (era necessário alguma ajuda , além do salário do pai e da mãe, família grande  pobre tem que ser assim mesmo).

 

                                    O valor  do trabalho era medido pela  consciência daquele que  pedia o serviço. Cada um “dava “ o que podia e o que queria. Assim todo dinheiro, toda a alimentação que entrava a mais, era mais um alento para o trabalho do meu pai e de minha mãe e de cada um de nós.

 

                                    As ervilhas...ah ! as ervilhas. Toda vez que como ervilha, lembro do meu passado, do seu Alcides, das vacas, dos companheiros agachados ao redor do monte de cascas, catando grão por grão, jogando conversa fora...sonhando e projetando o futuro. As casinhas também estão lá. Muitas pessoas diferentes. Existe uma parte do campinho. A fábrica Leal Santos fechou já há muitos anos.  Meu pai,  seu  Alcides, seu Fermino, seu Bebé, seu Luiz Britto, seu Nascer, dona Dina e tantos outros, já não existem mais. Mas permanecem na nossa  memória a cada encontro de família... quando tem ervilhas, quando nos reunimos.

 

                                    Hoje convivemos com outras gerações familiares. Nos nossos encontros partilhamos histórias, que a gurizada nem sempre gosta...afinal eles não conhecem um inverno tão frio como de antigamente , não acordaram  ouvindo o galo do Tufy cantar; hoje, muitos deles têm acesso diferenciado  a educação, saúde e acima de tudo alimentação. As nossas histórias de vida e de trabalho soam muitas vezes como abstração, e só se tornam  realidade, pela força dos depoimentos, depoimentos marcados e  registrados no semblante e na história individual e coletiva de cada um de nós.

 

                                    O ato de vivermos essa história nos legou um olhar crítico para as relações sociais  e de vida, relações essas que  oprimem  a grande maioria dos trabalhadores. Naquela época nós catávamos ervilhas, hoje vemos homens, mulheres e crianças garimpando lixões para terem o que comer. Na nossa realidade o catar ervilhas nos aproximou, pela vida e pelo sonho. Frio como o  dos invernos de alguns anos atrás,  nos lançou  ao desafio cotidiano de lutar para que ninguém...nenhum ser humano  precise catar ervilhas para sobreviver. Continuo gostando de ervilhas, brinco com elas...relembro o passado. Sempre conto para os meus filhos, familiares e para meus pares a história das ervilhas...Eles certamente não precisarão viver este contexto.

 

Jairo Dias Nogueira  

www.jaironogueira.radar-rs.com.br

nogueira@radar-rs.com.br  

 

 

Zé do Zé do Zé

 

Franklin Cunha *

 

Tipo do cara que nunca devia ter nascido. Preto, pobre, analfabeto e sem profissão. Filho de uma desmilinguida que já tinha parido sete neguinhos antes dele. E o que era pior, nem consumia nada. Tudo o que comia ou vestia, não comprava: catava. Não sabia nem seu nome completo. Zé do Zé foi o que escreveram na sua ficha de entrada na FEBEM, onde os brigadianos os deixaram aos dez anos, preso por vadiagem. Zé: filho de Zé e de Maria.

Quando teve de sair daquela sigla aos dezessete anos foi para o lixão ao lado da ponte embaixo da qual ficou morando. Passava o dia catando garrafa, papel, lata e comida numa dura disputa com um monte de Zés e de urubus. À noite, na cama de jornais da maloquinha que tinha constituído, Zé dormia tão pesadamente que nem o barulho da passagem de milhares de carros perturbava seu sono. Até sonhava um dia ter sua carrocinha com rodinhas de lambreta e tudo, para ele mesmo levar o que catava até o depósito sem ser explorado pelos homens dos caminhões. Sonhava com um passeio pelo centro da cidade sem ser perseguido pelos pés-de-porco e até – por que não – encontrar uma neguinha que não fosse tão mulambenta como as do lixão. Parecidinha com sua mãe que nunca tinha visto. (Deus Nosso senhor a guardasse e livrasse de todo a malamém que já devia estar mortinha da silva pobre tem um tiquitinho de vida).

Um dia, subiu o rio a procissão de barcos embandeirados e buzinentos trazendo a santa que vinha da cidade para a igreja, bem pertinho da ponte. Era a festança de Nossa Senhora dos Navegantes que os mais antigos do lixão chamavam de Nossa Senhora das Melancias. De tanta que tinha. Pois comendo uma que Zé do Zé conheceu a neguinha dos sonhos. Depois da segunda fatia ela começou a falar de sua vida.

Há anos dava umas bandas lá pelos lados da Voluntários mas agora os fregueses andavam sumidos  e não tinha lugar nem pra dormir. Foi a tampa certa pra panela do Zé que pensou: “Onde dorme um dorme dois; inda mais quando agarradinhos.” E lá se foi a Maria pra maloquinha debaixo da ponte. Até estátua de São Jorge (de lança quebrada) e retrato do Colorado tinham na parede. Um luxo. Tudo lixo. Que agora os dois catavam juntos. Com os ganhos agora dobrados, em pouco tempo deu pra comprar uma carrocinha (com rodas de lambreta e tudo) até um colchão meio esburacado, mas dos grandes, onde a neguinha foi emprenhada.

Um dia, quando Maria já estava botando barriga, apareceu na ponte um doutores e umas doutoras – gente bonita que só vendo – convidando pra de tarde o povo ir tomar uns cafés  reforçados num posto de saúde doutro lado da ponte. Que fossem comer à vontade e ouvir ns conselhos. Como era domingo e no lixão só estavam os urubus. Zé e Maria se mandaram.

Encheram o pandulho  de tanto comer e depois ficaram ouvindo os doutores e as doutoras que falavam bem pra cacete. Maria explicava as falas pro Zé pois tinha ouvido essas conversas no posto médico quando ia tratar as doenças pegadas. Era uma tal de campanha pros pobres ter menos filhos. Que fossem na clínica onde ganhariam as pílulas e se não se  dessem com elas, colocavam um aparelhinho no útero e até amarravam as trompas ou o cordãozinho do saco dos homens. Pobre tem de pensar mais antes de fazer filho. Só botar no mundo os que pode sustentar. Deviam “planejar a família”. Já tinha gente de mais nesse mundo por isso não tinha comida pra todos. 

 

Era melhor pouca gente vivendo bem em bem em vez de muita gente passando fome e miséria. Muita boca pra pouca comida e assim o Brasil não podia ir pra diante. Maria até leu pro Zé o que estava escrito numa faixa pendurada na parede:

“CAMPANHA DE PLANEJAMENTO FAMILIAR”.

 

No fim ainda falou um doutor todo emperiquitado, perfumado, com as unhas lustradas e de fala fina. Explicou como os pobres e as mulheres tinham que fazer pra ter prazer sempre, um não gozar antes do outro e ainda evitar que as mulheres não pegassem cria. 

 

A conversalhada foi toda filmada e até disseram que iam aparecer na TV na hora das notícias, antes da novela.

Mais tarde, na maloquinha da ponte, alumiada por uma vela, os dois, agarradinhos, deitados no colchão esburacado, de barriga cheia, ouvindo as águas do rio tocadas pelo minuano de inverno que já começava, sonhavam acordados, olhando pro São Jorge de lança quebrada.

_ Este filho, tu quer que eu ganhe  ele Zé?

_ Mas é claro neguinha.

_ Então o nome é tu que escolhe.

_ É? Então vai ser Zé do Zé...do Zé.

Dormiram tranqüila e profundamente naquela noite como nunca nenhum dos dois tinham dormido antes, debaixo da ponte, debaixo de um céu cheinho de estrelas que brilhavam como o quê e onde jamais tinham pensado em planejar qualquer coisa. No céu tinha lugar pra todas aquelas estrelas e pra todos os Zés e Marias desse mundão de Deus. Folgado.

 

* Franckilin Cunha, médico – Porto Alegre - RS

Textos premiados  no concurso histórias de trabalho

(Esse concurso é promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre e tem tido  participação de histórias de todos os     

lugares do Brasil) 

 

 

 

QUARTO DE DESPEJO 

DE CAROLINA MARIA DE JESUS

( O GRITO DA FAVELA QUE TOCOU A CONSCIÊNCIA DO MUNDO INTEIRO ) 

 

 

Nasci em (1958) no ano em que Carolina Maria de Jesus parou de escrever seu diário  sobre o cotidiano da favela. Muitos e muitos anos se passaram e ainda estamos numa luta permanente contra a fome e a miséria.

Resolvi colocar  algumas  reflexões que servirão como subsídio  para as aulas de Desenvolvimento de Comunidade na Universidade Católica de Pelotas. Objetivo: refletir a história,  cotidiano e a temporalidade (A digitação está igual a registrada no livro)

 

 

Carolina Maria de Jesus escreveu um diário que começa no dia 15 de julho de 1955, dia do aniversário de sua filha Vera Eunice, que queria sapatos e ela não podia comprar. Porque só tinha três garrafas vazias que trocou no impório do Arnoldo por um pedaço de pão, ela não pôde comprar sapatos para a Vera Eunice. Então, foi procurar sapatos no lixo, e remendou para ela calçar.

2 MAIO DE 1958. Eu não sou indolente. Há tempos que eu pretendia fazer meu diário. Mas eu pensava que não tinha valor e achei que era para perder tempo.

...Eu fiz uma reforma em mim. Quero tratar as pessoas que conheço com mais atenção. Quero enviar um sorriso amável as crianças e aos operários.

3 DE MAIO ... Fui na feira da Rua Carlos de Campos, catar qualquer coisa.Ganhei bastante verdura. Mas ficou sem efeito, porque eu não tenho gordura. Os meninos estão nervosos por não ter o que comer.

...O que eu aviso aos pretendentes a política, é que  o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.

9 DE MAIO. Eu cato papel,  mas não gosto. Então eu penso. Faz de conta que eu estou sonhando.

...O Brasil precisa ser dirigido por ma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.Quem passa fome aprende a pensar a pensar no próximo e nas crianças.

11 DE MAIO. Dia das Mães. O céu está azul e branco. Parece que até a natureza quer homenagear as mães que atualmente se sentem infeliz por não poder realizar os desejos dos  seus filhos. 

...Surgiu a noite. As estrelas estão ocultas. O barraco está cheio de pernilongos. Eu vou acender uma folha de jornal e passar pelas paredes. É assim que os favelados matam mosquitos.

16 DE MAIO. Eu amanheci nervosa. Porque eu queria ficar em casa, mas eu não tinha nada para comer.

...Eu não ia comer porque o pão era pouco. Será que é só eu que levo essa vida ? O que posso esperar do futuro ? Um leito em Campos do Jordão. Eu quando estou com fome quero matar o Janio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos.

19 DE MAIO. Deixei o leito as 5 horas. Os pardais já estão iniciando a sua sinfonia matinal. As aves deve ser mais feliz que nós. Talvez entre elas reina amizade, igualdade  (...) O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dormem porque deitam-se sem comer.

21 DE MAIO. Não tinha gordura. Puis a carne no fogo com uns tomates que eu catei lá na fábrica Peixe. Puis o cará e a batata. E água. Assim que ferveu eu puis o macarrão que os meninos cataram no lixo. Os favelados aos poucos estão  convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos. Eu não vejo eficiência no Serviço Social em relação ao favelado. Amanhã não vou ter pão. Vou cozinhar a batata doce.

...Eu sei que existe brasileiros aqui dentro de são Paulo que sofre mais do que eu. Em junho de 1957 eu fiquei doente e percorri as sedes do Serviço Social. Devido eu carregar muito ferro fiquei com dores nos rins. Para não ver os  meus filhos passr fome fui pedir auxilio ao propalado Serviço Social. Foi lá que eu vi as lagrimas deslisar dos olhos dos pobres. Como é pungente ver os dramas que ali se desenrrola. A ironia com que são tratados os pobres. A única coisa que eles querem saber são os nomes e os endereços dos pobres.

Fui no Palacio, o Palacio mandou-me para a sede na Av. Brigadeiro Luiz Antonio. Avenida Brigadeiro me enviou para o Serviço Social da Santa Casa. Falei com a Dona Maria Aparecida que ouviu-me e respondeu-me tantas coisas e não disse nada. Resolvi ir no Palacio e entrei na fila. Falei com o Senhor Alcides. Um homem que não niponico, mas amarelo como manteiga deteirorada. Falei com o senhor alcides;

- Eu vim pedir um auxilio  porque estou doente. O senhor mandou-me ir na Avenid Brigadeiro Luiz Antonio, eu fui. Na Avenida Brigadeiro mandou-me ir na santa Casa. E eu gastei o único dinheiro que eu tinha com conduções.

_ Prende ela !

Não deixaram sair. E um soldado pois a baioneta no meu peito. Olhei o soldado nos olhos e percebi que ele estava com dó de mim. Disse-lhe.

_ Eu sou pobre, por isso é que vim aqui.

Surgiu o Dr. Osvaldo de Barros, o falso filantrópico de São Paulo que está fantasiado de São Vicente de Paula. E disse:

- Chama um carro de preso !

23 DE MAIO. Fiz a comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetáculo deslumbrante ! as crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles.

Quando puis a comida o João sorriu. Comeram e não aludiram a cor negra do feijão. Porque negra é a nossa vida. Negro é tudo que nos rodeia.

27 DE MAIO. ...Percebi que no Frigorífico jogam creolina no lixo,  para  o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. a tontura da fome é pior do que a do álcool. a tontura do álcool nos impele a cantar . Mas  a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estomago.

...a comida no estomago é como combustível nas máquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei a andar mais depressa. Eu tinha a impressão de que deslizava no espaço. Comecei a sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que  ter o que comer ? Parece que estou comendo pela primeira vez na minha vida.