Thiago de Mello

Ferreira Gullar

Vinícios de Moraes

Carlos Drumond de Andrade

Fernando Pessoa

Bertold Brecht

 Diversos 

 

 

Enquanto o nosso país vive num mar de lama...

 

"Considerando nossa fraqueza, os senhores forjaram suas leis para nos escravizar. 

As leis não são mais respeitadas considerando que não queremos mais ser escravos. 

Considerando que os senhores nos ameaçam com fuzis e 

canhões, nós decidimos: de agora em diante tememos mais a miséria que a morte". 

(Bertold Brech)
 
 Se os tubarões fossem homens

Um texto de Bertold Brecht 

(Teatrólogo alemão e comunista já falecido)

"Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., 

seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?

Certamente, respondeu o Sr. K., se os tubarões fossem homens, 

construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo 

tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. 

Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam 

todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a 

barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo

 para que não morresse antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes 

festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor

 sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. 

Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente 

em direção à goela dos tubarões.
Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões 

que vagueiam descansadamente pelo mar.

O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. 

Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um
peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, 

sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. 

Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. 

Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista,

 e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.

Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, 

para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros.

 Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme
diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, 

são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não 

se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, 

os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma 

pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.

Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. 

Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas,

 e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. 

Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com
entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, 

sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, 

embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.

Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. 

Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, 

ou seja, na barriga dos tubarões.

Se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que todos 

os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e 

seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer

 os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais freqüentemente, teriam 

bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, 

cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, 

tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc.

Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar."

 

 

 "Dois quintos dos infernos"

 "E pensar que a luta pela independência do Brasil só começou quando os
portugueses exageraram na cobrança de impostos."
                              Otto Lara Resende
                      
   Durante o século XVIII, o Brasil Colônia pagava um alto tributo para seu
colonizador, Portugal. Esse tributo incidia sobre tudo o que fosse produzido
em nosso país e correspondia a 20% da produção. Essa taxação altíssima,
absurda,  era chamada de "O Quinto". Esse imposto recaía principalmente
sobre nossa produção de ouro. O Quinto era tão odiado pelas pessoas que foi
apelidado de "o quinto dos infernos". Portugal quis, em determinado momento,
cobrar os quintos  atrasados de uma única vez - no episódio conhecido como a
derrama. Isso  revoltou a população gerando a inconfidência mineira, que
teve seu ponto  culminante no enforcamento do líder Joaquim José da Silva
Xavier, o Tiradentes.  Essa história me faz pensar no presente. De acordo
com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário - IBPT, a carga
tributária brasileira deverá chegar ao final deste ano em 38% do PIB,
praticamente 2/5 (dois quintos) de nossa    produção. Calcula-se que nossa
capacidade tributária é de 24% do Produto Interno  Bruto. Hoje, a carga
tributária é o dobro daquela época da inconfidência  mineira, ou seja,
pagamos hoje dois quintos dos infernos!!!
                Só precisamos encontrar um novo Tiradentes...

 

SAUDADES...

"Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as
conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,
dos tantos risos e momentos que compartilhamos.
Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia,das vésperas de finais de
semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.
Hoje não tenho mais tanta certeza disso.
Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum
desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar quem
sabe... nos e-mails trocados.
Podemos nos telefonar conversar algumas bobagens....
Aí os dias vão passar, meses... anos... até este contato tornar-se cada vez
mais raro.
Vamos nos perder no tempo... Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias
e perguntarão? Quem são aquelas pessoas? Diremos... Que eram nossos amigos.
E... isso vai doer tanto!
Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!
A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar,
ouvir aquelas vozes
novamente...
Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um ultimo
adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos.
Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por
fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha
isolada do passado.
E nos perderemos no tempo...
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo : não deixes que a vida
passe em branco, e que pequenas adversidades seja a causa de grandes
tempestades...
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus
amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"

                                                 Fernando Pessoa

DESIDERATA

Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa,
lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

Tanto quanto possível, sem humilhar-se,
mantenha boas relações com todas as pessoas.

Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros,
mesmo a dos insensatos e ignorantes,
eles também tem sua própria história.

Evite as pessoas escandalosas e agressivas,
elas afligem o nosso espírito.

Se você se comparar com os outros,
se tornará presunçoso e magoado,
porque sempre haverá alguém inferior
e alguém superior a você.

Você é filho do universo,
irmão das estrelas e árvores,
você merece estar aqui.

E mesmo que você não possa perceber,
a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.

Mantenha-se interessado em seu trabalho,
mesmo que humilde,
ele é o que de real existe ao longo do tempo.

Seja prudente nos negócios,
pois o mundo está cheio de astúcias,
mas não se torne um cético,
porque a virtude existirá sempre.

Muita gente luta por altos ideais e
em toda a parte a vida está cheia de heroísmos.

Seja você mesmo.

Principalmente não simule afeição,
nem seja descrente do amor,
porque apesar de tanta aridez e desencanto,
ele é tão perene quanto a relva.

Aceite o conselho dos mais velhos e seja mais
compreensivo aos impulsos inovadores da juventude.

Alimente a força do espírito que
o protegerá no infortúnio inesperado,
mas não se desespere com os perigos imaginários.

Muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

E a despeito de uma disciplina rigorosa,
seja gentil consigo mesmo.

Esteja em paz com Deus,
como quer que você o conceba.

Mantenha-se em paz com a sua própria alma.

Apesar de todas as falsidades,
agruras e desencantos, o mundo ainda é bonito.

Seja prudente, e faça tudo para ser FELIZ!

 

CHAPLIN...

 

Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o
relógio marque meia noite.
É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje.

Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às
águas por lavarem a poluição.
Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir
encorajado para administrar minhas finanças, evitando o
desperdício.
Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo.
Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido.
Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho.
Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus.
Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades

Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar.
O dia está à minha frente esperando para ser o que eu quiser.
E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma.
Tudo depende só de mim."
Sorria
Mas não se esconda atrás deste sorriso.
Mostre aquilo que você é. Sem medo.
Existem pessoas que sonham.
Viva. Tente.
Felicidade é o resultado dessa tentativa.
Ame acima de tudo.
Ame a tudo e a todos.
Deles depende a felicidade completa.
Procure o que há de bom em tudo e em todos.
Não faça dos defeitos uma distância e sim, uma aproximação.
Aceite. A vida, as pessoas...
Faça delas a sua razão de viver.
Entenda os que pensam diferentemente de você.
Não os reprove.
Olhe à sua volta, quantos amigos...
você já tornou alguém feliz?
Ou fez alguém sofrer com o seu egoísmo?
Não corra... Para que tanta pressa?
Corra apenas para dentro de você. Sonhe,
mas não transforme esse sonho em fuga.
Acredite! Espere!
Sempre deve haver uma esperança.
Sempre brilhará uma estrela.
Chore! Lute!
Faça aquilo que você gosta. Sinta o que há dentro de você.
Ouça... Escute o que as pessoas têm a lhe dizer.
É importante.
Faça dos obstáculos degraus para aquilo que você acha
supremo... Mas não esqueça daqueles que não conseguiram subir a escada da vida
Descubra aquilo de bom dentro de você. Procure acima de tudo ser gente.
Eu também vou tentar.
Sou feliz...
Porque você existe!

                  AUTOR: CHARLIE CHAPLIN

 

Diminuir o passo e mudar o curso.

Há alguns anos, nas olimpíadas especiais de Seattle, também chamada de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental ou física
alinharam-se para a largada da corrida dos cem metros rasos. Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar. Todos, exceto um garoto, que tropeçou no piso, caiu rolando e começou a chorar.

Os outros oito ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás.

Viram o garoto no chão, pararam e voltaram. Todos eles! Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou-se, deu um beijo no garoto e disse: "pronto, agora vai sarar".

E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. O estádio inteiro levantou e não tinha um único par de olhos
secos. E os aplausos duraram longos minutos. E as pessoas que estavam ali, naquele dia, repetem essa história até hoje. Por quê?

Porque lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho, é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir o passo e mudar de curso.

"Que cada um de nós possa ser capaz de diminuir o passo ou mudar de curso para ajudar alguém que em algum momento de sua vida tropeçou e precisa de
ajuda para continuar.."

 

Escolhas

 

Dê uma boa olhada ao seu redor, e entenda que sua vida agora 

mesmo é o resultado de todas as suas escolhas no passado. 

Você gosta do que vê? Certamente você andou muito para chegar até aqui. 

Você sobreviveu e deu um jeito de estar onde está.

Existem coisas que poderiam melhorar? Provavelmente.

Existem lugares que você gostaria de conhecer, coisas que gostaria de fazer?

Você consegue imaginar a sua vida sendo ainda melhor, ainda mais 

gratificante e emocionante do que é hoje?

Então, como chegar lá? Do mesmo jeito que chegou até aqui: 

como resultado das escolhas que você faz.

Existem escolhas, e existem escolhas. Geralmente prestamos 

muita atenção às grandes decisões: faculdade, casamento, 

a primeira casa ou apartamento.

Mas, freqüentemente, as decisões mais poderosas são as ‘pequenas’, 

aquelas que fazemos um dia após do outro: 

fazer ou não mais uma visita,

 dar aquele telefonema, acordar mais cedo para fazer exercício, 

a atitude com que encaramos o dia a dia no trabalho.

A qualidade da sua vida é um resultado 

direto das escolhas que você faz.

E cada momento em sua vida é uma escolha.

 O futuro aproxima-se no mesmo ritmo de sempre. 

Então preste atenção nas suas escolhas, pois são elas que moldarão ,

 ativamente o resto da sua vida.

Ralph Marston


 

 

PERDAS E JULGAMENTOS

 

 Havia numa aldeia um velho pobre, mas até reis o invejavam, pois ele tinha 

um lindo cavalo branco.

 Ofereciam quantias fabulosas pelo animal, mas o homem dizia:
- Senhor, este cavalo não é um cavalo a ser usado por mim, pois é uma pessoa. 

E como pode-se vender uma pessoa, um amigo?
O homem era pobre, porém, jamais o vendeu.

Numa dada manhã, descobriu que o cavalo não estava na cocheira.

 A aldeia inteira se reuniu e as pessoas disseram:
- Seu velho estúpido! Sabíamos que um dia o cavalo seria roubado. 

Teria sido melhor vendê-lo. Que desgraça!
O velho respondeu:
- Não cheguem a tanto. Simplesmente digam que o cavalo não está mais na cocheira. 

Este é o fato. O resto é julgamento! Se é uma desgraça ou uma benção,
não sei, pois este é apenas um fragmento. Quem pode saber o que vai ser?

As pessoas riram do velho. Elas sempre souberam que ele era um pouco maluco.

Quinze dias depois, numa noite, o cavalo voltou. Ele não havia sido roubado, tinha

 fugido para a floresta. E não apenas isso: trouxe consigo uma dúzia de cavalos selvagens.
O povo da aldeia então disse ao velho:
- Você estava certo, velho. Não se tratava de uma desgraça;

 na verdade, provou ser uma benção.

O velho falou:
- Novamente vocês estão se adiantando.

 Apenas digam que o cavalo está de volta. Se é uma benção ou não, 

quem sabe? Esta é apenas um fragmento. Ao ler uma
única palavra de uma sentença, como vocês podem julgar todo o livro?

Desta vez as pessoas não podiam dizer muito, mas anteriormente pensaram que 

ele estava errado. Afinal, lindos cavalos tinham vindo. O velho tinha um único filho que

 começou a treinar os cavalos selvagens. Apenas uma semana depois, ele
caiu de um cavalo e fraturou as pernas e novamente as pessoas 

se reuniram e  julgaram.

 Elas disseram:
- Você tinha razão novamente, foi uma desgraça. Seu único filho perdeu o uso das pernas e 

na sua velhice ele seria seu único amparo. Agora você está mais pobre do que nunca.


O velho disse:
- Vocês estão obcecados por julgamentos. Não se adiantem tanto. 

Digam apenas que meu filho fraturou as pernas. Ninguém sabe se isso é uma desgraça 

ou uma benção. A vida vem em fragmentos. Mais que isso nunca é dado.

Aconteceu que, depois de algumas semanas, o país entrou numa guerra e
todos os jovens da aldeia foram forçados a se alistar. Somente o filho do velho
foi deixado para trás, pois era aleijado. A cidade inteira chorava, lamentando-se,
porque sabiam que era uma luta perdida e que a maior parte dos jovens jamais voltaria.

 

Elas vieram até o velho e disseram:
- Você tinha razão velho. Aquilo se revelou uma benção. Seu filho pode estar aleijado,

 mas ainda está com você. Nossos filhos se foram para sempre.

O velho disse:
- Vocês continuam julgando. Ninguém sabe! Digam apenas que seus filhos foram 

forçados a entrar para o exército e que o meu não foi. Somente Deus, a totalidade, 

sabe se isso é uma benção ou uma desgraça.

 *****


Não julgue, pois jamais se tornará um com a totalidade. 

Você ficará obcecado com fragmentos e tirará conclusões a partir de coisas 

pequenas. Quando você julga, deixa de crescer. Julgamento significa um

estado mental estagnado. E a mente
sempre deseja julgar, pois estar em progresso é sempre 

arriscado e desconfortável.
Na verdade, a jornada nunca chega ao fim. Um caminho termina, outro começa; 

uma porta se fecha, outra se abre. Você atinge um cume e sempre surge outro mais alto.

 Deus é uma jornada sem fim. Somente os tão corajosos a ponto de não se importarem 

com a meta, e que se contentam com a jornada e com simplesmente viver o momento 

e nele crescer, somente esses são capazes de caminhar com a totalidade.

Autor desconhecido

 

 

THIAGO DE MELLO

ESTATUTO DO HOMEM

  Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

 Santiago do Chile, abril de 1964  

 

Saberes Diferentes

Em um largo rio, de difícil travessia, havia um barqueiro que atravessava as pessoas 

de um lado para o outro. Em uma das viagens, iam um advogado e uma professora. 

Como quem gosta de falar muito, o advogado pergunta ao barqueiro:

- Companheiro, você entende de leis?

- Não. - Responde o barqueiro.

E o advogado compadecido:

- É pena, você perdeu metade da vida!

A professora muito social entra na conversa:

- Seu barqueiro, você sabe ler e escrever?

- Também não. - Responde o remador.

- Que pena! - Condói-se a mestra - Você perdeu metade da vida!

Nisso chega uma onda bastante forte e vira o barco. O canoeiro preocupado pergunta:

- Vocês sabem nadar?

Não! - Responderam eles rapidamente.

- Então é pena - Conclui o barqueiro - Vocês perderam toda a vida!

"Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes"

(Paulo Freire)

   

 

MEDO DE DIZER TE AMO...

Um cientista coloca um ratinho numa gaiola.
No início, ele ficará passeando de um lado para outro,
movido pela curiosidade.
Quando sentir fome, irá na direção ao alimento.
Ao tocar no prato, no qual o pesquisador instalou um
circuito elétrico, o ratinho levará um choque forte, tão
forte que, se não desistir de tocá-lo, poderá até morrer.
Depois do choque, o ratinho correrá na direção oposta ao  prato.
Se pudéssemos perguntar-lhe se tem fome, certamente
responderia que não, porque a dor provocada pelo choque
faz com que despreze o alimento.
Depois de algum tempo, porém, o ratinho entrará em
contato com a dupla possibilidade da morte: a morte pelo
choque ou pela fome.
Quando a fome se tornar insuportável, o ratinho,
vagarosamente, irá de novo em direção ao prato.
Nesse meio tempo, no entanto, o pesquisador desligou o
circuito e o prato não está mais eletrificado.
Porém, ao chegar quase a tocá-lo, o medo ficou tão
grande que o ratinho terá a sensação de que levou um
segundo choque.
Haverá taquicardia, seus pelos se eriçarão e ele correrá
novamente em direção oposta ao prato.
Se lhe perguntássemos o que aconteceu, a resposta seria:
- "Levei outro choque". Esqueceram de avisá-lo que a
energia elétrica estava desligada!
A partir desse momento, o ratinho vai entrando numa
tensão muito grande.
Seu objetivo, agora, é encontrar uma posição
intermediária entre o ponto da fome e o do alimento que
lhe dê uma certa tranqüilidade.
Qualquer estímulo súbito, diferente,que ocorrer por
perto, como barulho, luminosidade ou algo que mude o
ambiente, levará o ratinho a uma reação de fuga em
direção ao lado oposto do prato.
É importante observar que ele nunca corre em direção à
comida, que é do que ele realmente precisa para
sobreviver. Se o pesquisador empurrar o rato em direção
ao prato, ele poderá morrer em conseqüência de uma
parada cardíaca, motivada pelo excesso de adrenalina,
causado pelo medo de que o choque primitivo se repita.
É provável que você esteja se perguntando: -"Muito bem,
mas o que isso tem a ver com o medo de amar?". 

Tem tudo a ver.
Muitas vezes, vemos pessoas tomando 

choques sem sequer tocar no prato.
Quantas vezes, esta semana, você teve vontade de
convidar alguém para sair, para conversar, para ir à
praia ou ao cinema, e não o fez, temendo que a pessoa
pudesse não ter tempo ou não gostasse de sua companhia
e, desse modo, acabou sentindo-se rejeitado - sem ao menos ter tentado?
Quantas vezes você se apaixonou sem que o outro jamais
soubesse do seu amor?
Quantas vezes você abandonou alguém, com medo de ser
abandonado antes?
Quantas vezes você sofreu sozinho, com medo de pedir
ajuda e ficar "dependente" de alguém?
Quantas vezes você se afastou de um grande amor, com
medo de se comprometer?
Quantas vezes você não se entregou ao amor por medo de
perder o controle de sua "liberdade"?
Quantas vezes você deixou de viver um grande amor com
medo de sofrer de novo...
Quantas vezes você tomou um choque sem nem sequer tocar no prato?
.. é melhor tentar e perder ... do que ...
Viver na incerteza !!!

(Roberto Shinyashiki)

 

      M á r i o  Q u i n t a n a

Cidade natal: - Alegrete, RS.

Diziam os amigos mais íntimos, que Mario Quintana era o poeta das coisas 

simples e fazia pouco caso em relação à crítica. Conforme costumava comentar, sua poesia 

era feita simplesmente por sentir necessidade de escrever.

Em 1928 ingressou no jornal O Estado do Rio Grande

Após ter participado da Revolução de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro,

 retornando em 1936 para a Livraria do Globo, em Porto Alegre, onde trabalhou sob 

a direção de Erico Verissimo. 

Dentre suas obras traduzidas, destacamos: Lin Yutang, Charles Morgan, Maupassant, 

Proust, Rosamond Lehman, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, . 

Em sua poesia há um constante travo de pessimismo e muito de ternura por um 

mundo que, parece, lhe é adverso.

Suas Obras:  A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1945), Sapato Florido (1947), 

poemas em prosa; Espelho Mágico (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950). Em 1962 reuniram-se 

suas obras em um único volume, sob o título Poesias. Outras obras: Pé de Pilão (1968), 

Apontamentos de História Sobrenatural (1976), Nova Antologia Poética (1982), 

Batalhão das Letras (1984  

 

"Amar: Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... 

E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, 

e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei...

 O amor é quando a gente mora um no outro." 

 

 

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o
ritual do casamento: a igreja, com seus vestidos brancos e tapetes
vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre:
"Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença,
amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?"
Acho simplista e um pouco fora da realidade.

Dou aqui novas sugestões de sermões:
- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e
sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não
pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga (o) e ser amante, sabendo exatamente quando
devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe 

transforme numa pessoa de
dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via 

de amadurecimento e não uma
via de cobranças por sonhos idealizados

 que não chegaram a se concretizar?
  - Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser
feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece
você e, portanto a mais bem preparada para lhe ajudar,
  assim como você a ela?
  -Promete se deixar conhecer?
  - Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que
não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
  *   Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por
  vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem
independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
   - Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para
arrancar risadas dos outros?
  - Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que
sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por 

si mesmo  sem
ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria
solidão que casamento algum elimina?
  - Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na
igreja? Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher:
declaro-os  maduros.
  Escolha o seu amor. Ame a sua escolha!
  "Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há
também aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol."

 

 

 

BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Näo o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres, enfim,
Tem de ser bem devagarinho, amada,
Que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
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UM DIA ACORDARAS
Um dia acordarás num quarto novo
Sem saber como foste para lá
E as vestes que acharás ao pé do leito
De täo estranhas te faräo pasmar,
A janela abrirás, devagarinho:
Fará nevoeiro e tu nada verás...
Hás de tocar, a medo, a campainha
E, silenciosa, a porta se abrirá.

E um ser, que nunca viste, em um sorriso
Triste, te abraçará com seu maior carinho
E há de dizer-te para o teu assombro:

- Näo te assustes de mim, que sofro há tanto!
Quero chorar - apenas - no teu ombro
E devorar teus olhos, meu amor...
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O AUTO RETRATO
No auto retrato que me faço
- traço a traço -
As vezes me pinto nuvem,
As vezes me pinto árvore...

As vezes me pinto coisas
De quem nem há mais lembrança...
Ou coisas que näo existem
Mas que um dia existiräo...

E desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!
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DO AMOROSO ESQUECIMENTO:
Eu, agora, - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
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LIBERTAÇAO
A morte é a libertaçäo total:
A morte é quando a gente pode, afinal,
Estar deitado de sapatos...
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HAI-KAI
Rosa suntuosa e simples,
Como podes estar täo vestida
E ao mesmo tempo inteiramente nua?
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MAQUINA DE ESCREVER
Como pode ser íntima uma carta escrita à máquina?
Traz a idéia de distância, de pequena mas intransponível
distância... como um beijo dado de máscara.
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APONTAMENTOS PARA UMA ELEGIA
Poeta, está na hora em que os galos móveis do para-raios
Bicam a rosa dos ventos,
Está na hora de trocares a tua veste feita de momentos...
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NOTURNO
Ninguém no cais deserto... Apagaram-se os grilos.
As estrelas estäo imóveis e tristes como um mapa sideral.
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NUNCA NINGUÉM SABE
Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem esse quase imperceptível tremor...
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DIA DA SAUDADE
... É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que apenas, levemente,
o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
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A INFIEL COMPANHEIRA
Como um cego, grita a gente: "Felicidade, onde estás?"
Ou vai-nos andando à frente... Ou ficou lá para trás...
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NOTURNO
Näo sei por quê, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca...
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REFLEXOS E REFLEXÖES
Quando a idade dos reflexos, rápidos, inconscientes, cede
lugar à idade das reflexöes - terá sido a sabedoria que
chegou? Näo! Foi apenas a velhice.
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DA MORTE
Um dia... pronto! ... me acabo. Pois seja o que tem de ser.
Morrer, que me importa? ... O diabo é deixar de viver!
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EXAME DE CONSCIENCIA
Há noites em que näo posso dormir de remorsos
por tudo o que deixei de cometer...
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E todos esses que aí estäo
Atravancando meu caminho
Eles passaräo...
Eu, passarinho!
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DIA UNIVERSAL DA MULHER (MÁRIO QUINTANA)

Sesteava Adäo quando, sem mais aquela,
se achega Jeová e diz-lhe, malicioso:
"Dorme, que este é o teu último repouso!"
E retirou-lhe Eva da costela...
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Se assim (tudo esquecer talvez!)
E ir andando, pela névoa lenta,
Com a displicência de um fantasma inglês..
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Dali a três quadras o mundo acabava.
Dali a três quadras, numvalo profundo...
Bem junto com a rua o mundo acabava.
Rodava a ciranda no meio do mundo...
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Cidadezinha cheia de graça...
Täo pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça...
Sua igrejinha de uma torre só...
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E as horas lá se väo, loucas ou tristes...
Mas é täo bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti...saber que tu existes!
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O banho de luz, täo puro,
Na paisagem familiar:
Meu chäo,meu poste, meu muro,
Meu telhado e minha nuvem,
Tudo bem no seu lugar.
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Ah, e eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!...
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Este silêncio é feito de agonias
E de luas enormes, irreais,
Dessas que espiam pelas gradarias
Nos longos dormitórios de hospitais.
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Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi umjeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
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NUDEZAS
Näo mandes contra essas moças de capas de revistas:
um corpo bonito pertence aos olhos do mundo.
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Por supremo pudor, despe-te,
despe-te, quanto mais nu mais tu,
despoja-te mais e mais.
Até a invisibilidade.
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Frases:

Todas as manhäs, quando abro a janela do meu quarto, é como se
abrisse o mesmo livro numa página nova.


Näo há nada que nos dê um sono mais tranqüilo que uma vingança
bem executada...


Tu dizes que a verdade produz frutos... Já vistes as flores que
a mentira dá?


O melhor vinho é aquele que tu bebes calmamente na companhia do
teu mais velho e silencioso amigo.


Já tens de nascença tua filosofia. As razöes vêm depois, tal como
escolhes na chapelaria a fôrma que mais te assente na cabeça.


O trabalho dignifica o homem e enriquece o paträo.
Um verdadeiro suicida näo deixa declarações.


Só se deve beber por gosto; beber por desgosto é uma cretinice.


Era um país täo feliz que jamais aparecia nos noticiários internacionais.


Säo muitos os que morrem antes, outros depois, o difícil é acertar a hora.


Nunca faças escândalos pequenos. O ridículo está é nas pequenas coisas...


Sempre que chove tudo faz tanto tempo...


Que tristes os caminhos, se näo fosse a mágica presença das estrelas!

Buscas a perfeição? Näo sejas vulgar... A autenticidade é muito mais difícil.


A rede das estrelas é uma incômoda teia de aranha na face da Eternidade.


As vezes, o maior encanto dos bebês säo as babás.


Revelação: durante as belas noites de tempestade os relâmpagos
tiram radiografias da paisagem.


Surpresa: O mais desconcertante da morte é quando a gente descobre
que alma näo tem sexo.


Quando deres opinião, nunca deixes de escrever a data...


Em sua pobre eternidade, os deuses desconhecem o preço único do instante...


O que mais me revolta na matemática säo as suas aplicações práticas.


Depois de cada desilusão perdida, que extraordinária sensação de alívio!


Amizade: quando o silêncio a dois näo se torna incômodo.
Amor: quando o silêncio a dois se torna cômodo.


O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.


Desculpa: mas se ele, que é o próprio dono do segredo, näo sabe guardá-lo,
eu é que vou guardar?!


Minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.


A burrice é invencível.


A esperança é um urubu pintado de verde.


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Ah, sim, a velha poesia...

Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros näo dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Näo estão ouvindo, lá fora, os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos säo os poetas mortos.

Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde,
um retrato amarelecido, um velho ovo de costura,
os teus pecados, as reivindicações, as explicações
- menos o dar de ombros e os risos contidos,
mas todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte,
as explosões de cólera,
o ranger de dentes,
as alegrias agudas até o grito,
a dança dos ossos...

Pois bem, às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a poesia faz uma coisa que
parece que nada tem a ver com os ingredientes mas que
tem por isso mesmo um sabor total: eternamente esse
gosto de nunca e de sempre.
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CANÇÄO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado,
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada,
[numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!

(Mário Quintana, in "Cançöes",1946)
 


Quem Ama Inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
e era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bibalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos coraçöes
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
ó!meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado...e ter vivido o sonho!

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Das Utopias

Se as coisas säo inatingíveis... ora !
Näo é motivo para näo querê-las...
Que tristes os caminhos, se näo fora
A presença distante das estrelas!
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Se as coisas säo inatingíveis
Näo é motivo para näo querê-las
Afinal, que graça teria a vida?
Se näo fossem as estrelas.
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PARA SER FELIZ  

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, 

mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde,

 ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: 

queremos a piscina olímpica e uma temporada num SPA cinco estrelas.
E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos 

conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. 

Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. 

Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser 

surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de

 velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, 

queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. 

Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, 

feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente 

quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando. 

Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado.

 E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, 

buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor,

 um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem 

almejar o estrelato, amar sem 

almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o

que nos mobiliza, instiga e conduz 

mas sem exigir-se desumanamente.
A vida não é um jogo onde só quem 

testa seus limites é que leva o prêmio.
Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. 

Se a meta está demais, reduza-a. 

Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. 

Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode 

encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. 

Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude 

no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

 

A IDADE DE SER FELIZ

 Mário Quintana

 Existe somente uma idade para a gente ser feliz, 

somente uma época na vida  de cada pessoa em que é possível sonhar

e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de 

todas as dificuldades e obstáculos.
 Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver 

apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade

 sem medo nem culpa de sentir prazer.
 Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria 

imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos 

os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.
 Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite 

à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, 

de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
 Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE

 e tem a duração do instante que passa.

 

A RUA DOS CATAVENTOS

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...

E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

           XII

Para Erico Verissimo

O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua - a Lua! - em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado...

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude...

 

BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

 

CANÇÃO DE BARCO E DE OLVIDO

                   Para Augusto Meyer

Não quero a negra desnuda.
Não quero o baú do morto.
Eu quero o mapa das nuvens
E um barco bem vagaroso.

Ai esquinas esquecidas...
Ai lampiões de fins de linha...
Quem me abana das antigas
Janelas de guilhotina?

Que eu vou passando e passando,
Como em busca de outros ares...
Sempre de barco passando,
Cantando os meus quintanares...

No mesmo instante olvidando
Tudo o de que te lembrares.

OBSESSÃO DO MAR OCEANO

Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

DOS MUNDOS

Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.

DOS MILAGRES

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!

 

DO AMOROSO ESQUECIMENTO

Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

 

CANÇÃO DE OUTONO

  O outono toca realejo

No pátio da minha vida.

Velha canção, sempre a mesma,

Sob a vidraça descida...

Tristeza? Encanto? Desejo?

Como é possível sabê-lo?

Um gozo incerto e dorido

de carícia a contrapelo...

Partir, ó alma, que dizes?

Colhe as horas, em suma...

mas os caminhos do Outono

Vão dar em parte alguma!

 

DA DISCRIÇÃO

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...

 

 O AUTO-RETRATO

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

Apontamentos de História Sobrenatural

 O MAPA

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

Apontamentos de História Sobrenatural

O MORTO

Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!

Apontamentos de História Sobrenatural

OS DEGRAUS

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

Baú de Espantos

OS ARROIOS

Os arroios são rios guris...
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d'água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...

Baú de Espantos  

OS POEMAS

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Esconderijos do Tempo

A CANÇÃO DA VIDA

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

Esconderijos do Tempo

 

POEMINHA SENTIMENTAL

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Preparativos de Viagem

 

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

A Cor do Invisível

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

A Cor do Invisível

O PIOR

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

Caderno H  

EXAME DE CONSCIÊNCIA

Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?

Caderno H

A GRANDE SURPRESA

Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...

Caderno H  

 

EVOLUÇÃO

O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido

 nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.

Caderno H  

 SESTA ANTIGA

A ruazinha lagarteando ao sol,
O coreto de música deserto
Aumenta ainda mais o silêncio.
Nem um cachorro.
Este poeminha
É só o que acontece no mundo...

 

RITMO

Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco

Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes

No arroio
a lavadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa

até que enfim
se desenrola
toda a corda
e o mundo gira imóvel como um pião!

Thiago de Mello

 


O ANIMAL DA FLORESTA 

De madeira lilás ( ninguém me crê )

se fez meu coração. Espécie escassa

de cedro, pela cor e porque abriga

em seu âmago a morte que o ameaça.

Madeira dói?, pergunta quem me vê

os braços verdes, os olhos cheios de asas.

Por mim responde a luz do amanhecer

que recobre de escamas esmaltadas

as águas densas que me deram raça

e cantam nas raízes do meu ser.

No crepúsculo estou da ribanceira

entre as estrelas e o chão que me abençoa

as nervuras.

Já não faz mal que doa

meu bravo coração de água e madeira.


ARTE DE AMAR

Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.

Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando

a glória do seu poder.

 

 

UMA HISTÓRIA QUE FALA DA VIDA

"ERA UMA VEZ...

...logo após a Segunda Guerra Mundial, um jovem piloto

Inglês que experimentava o seu frágil avião monomotor

numa arrojada aventura ao redor do mundo. Pouco depois de levantar

vôo de um dos pequenos e improvisados aeródromos da Índia,

ouviu um estranho ruído que vinha de trás de seu assento.

Percebeu logo que havia um rato a bordo e que poderia , roendo

a cobertura de lona, destruir o seu frágil avião.

Poderia voltar ao aeroporto para se livrar de seu incômodo,

perigoso e inesperado passageiro. Lembrou-se, contudo,

de que os ratos não resistem a grandes alturas.

Voando cada vez mais alto percebeu, pouco apouco,

cessarem os ruídos que quase punham em risco sua viagem

Assim é a vida(...)quando os ratos ameaçam destruir-lhe

por inveja, calunia ou maledicência, voe mais alto (...)

se o criticam, voe mais alto (...) se lhe fazem injustiças,

voe mais alto. Lembre-se sempre que os ratos não

resistem às alturas"

(MOTA, Evandro. Algumas maneiras de fazer alguém feliz.

6ª ed. Curitiba: Luz e Vida)

 

 

QUEM GOSTA DE MÚSICA ENTENDE A HISTÓRIA...

A CULTURA DE CADA UM DE NÓS

  Década de 30
Ele, de terno cinza e chapéu panamá, em frente à vila onde ela mora, canta:

"Tu és, divina e graciosa, estátua majestosa!
Do amor por Deus esculturada.
És formada com o ardor da alma da mais linda flor, de mais ativo
olor, que na vida é a preferida pelo beija-flor...."
____________________
Década de 40

Ele ajeita seu relógio Pateck Philip na algibeira,

escreve para a Rádio Nacional e manda oferecer a ela uma linda música:

"A deusa da minha rua, tem os olhos onde a lua,costuma se embriagar.
Nos seus olhos eu suponho, que o sol num dourado sonho, vai claridade
buscar"
__________________
Década de 50
Ele pede ao cantor da boate que ofereça a

ela a interpretação de uma bela bossa:

"Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.
É ela a menina que vem e que passa,

no doce balanço a caminho do mar.
Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema.
O teu balançado é mais que um poema.
É a coisa mais linda que eu já vi passar."
____________________
Década de 60
Ele aparece na casa dela com um compacto simples

embaixo do braço, ajeita a
calça lee e coloca na vitrola uma música papo firme:
"Nem mesmo o céu, nem as estrelas,
nem mesmo o mar e o infinito não é
maior que o meu amor, nem mais bonito.
Me desespero a procurar,
alguma forma de lhe falar,
como é grande o meu amor por você...."
____________________
Década de 70
Ele chega em seu fusca, com tala larga, sacode o cabelão,

abre a porta pra mina entrar e bota uma melô jóia no toca-fitas:
Foi assim, como ver o mar,
a primeira vez
que os meus olhos se viram
no teu olhar....
Quando eu mergulhei
no azul do mar,
sabia que era amor
e vinha pra ficar...."
_________ __________
 Década de 80
Ele telefona pra ela e deixa rolar um:
"Fonte de mel, nos olhos de gueixa,
Kabuqui, máscara.
Choque entre o azul e o cacho de acácias,
luz das acácias, você é mãe do sol. Linda...”
____________________
Década de 90
Ele liga pra ela e deixa gravada uma música na secretária eletrônica:
“ Bem que se quis, depois de tudo ainda ser feliz.
Mas já não há caminhos pra voltar.
E o que é que a vida fez da nossa vida?
O que é que a gente não faz por amor? ”
____________________
ANO DE 2001
Ele captura na internet um batidão legal e manda pra ela, por e-mail:
"Tchutchuca! Vem aqui com o teu Tigrão.
Vou te jogar na cama e te dar muita pressão!
Eu vou passar cerol na mão, vou sim, vou sim!
Eu vou te cortar na mão! Vou sim, vou sim!
Vou aparar pela rabiola! Vou sim, vou sim!”
___________________
ANO DE 2002
Ele pára o caranga rebaixada, e no mais alto volume solta o som:
"Abre as pernas, faz beicinho,
eu vou morder o seu grelinho....
Vai Serginho, vai Serginho...."
Vem menina não se espanta,
eu vô gozá na tua garganta...."
__________________
ANO DE 2003
Ele dormiu o dia todo, de todos os dias

da semana,  só sai a noite  todo detonado com vontade

de azarar todo mundo...porrada

pra cá, porrada prá e aí ele canta pra sua  lacraia

 Minha éguinha
"Pocotó, Pocotó, Pocotó, Pocotó,
Minha éguinha Pocotó"

 

 

 

 A VERDADE

 

 Uma boa verdade vale mais que uma mentira cabeluda..

 O executivo saiu do escritório e sua secretária estava no ponto de ônibus.

 Caía a maior chuva.

 Ele parou e perguntou:

 Você quer carona?

 Claro... respondeu ela, entrando no carro.

 Chegando no edifício onde ela morava, ele parou o carro para que ela

saísse e ela o convidou para entrar.

 Não quer tomar um cafezinho, um whisky, ou outra coisa?

 Não, obrigado, tenho que ir para casa...

Imagine, o Sr. foi tão gentil comigo, suba um

 pouquinho...

 Ele subiu, atendendo ao pedido da moça.

 Ao chegarem lá, ele ficou tomando seu drink,

 enquanto ela foi para o seu

quarto, retornando toda gostosa e perfumada.

 Depois de alguns gorós, quem poderia aguentar?

 Ele não resistiu... Transou com a secretária e

 acabou adormecendo. Por volta das 4:00 hs da

manhã, ele acordou e olhou o relógio. Tomou o  maior susto...

 Vestiu-se rapidamente, colocou um giz na orelha e foi pra casa.

 Chegou silenciosamente e a esposa o esperava atrás da porta.

 Quando ele entrou...

 Que bonito, onde o Sr. estava até agora?

 Aconteceu o seguinte, minha querida: eu saí do escritório e a minha

secretária estava no ponto de ônibus.

 Caía a maior chuva e eu dei carona pra ela.

 Chegando em sua residência, ela insistiu tanto para 

que eu subisse, e eu subi. Bebi demais e acabamos transando, na cama. 

Eu dormi e acordei agora...

 Deixa de ser mentiroso, seu cachorro.

 Você estava jogando bilhar com seus amigos até agora.

 Esqueceu até o giz na orelha...  

 

COMO NASCE UM PARADIGMA

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula,

 em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas.
Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, 

os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão.
Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, 

os outros enchiam-no de pancadas.
Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, 

apesar da tentação das bananas.
Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos.
A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente 

retirado pelos outros, que o surraram.
Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada.
Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, 

com entusiasmo, da surra ao novato.
Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, 

o último dos veteranos foi substituído.
Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, 

mesmo nunca tendo tomado um banho frio, 

continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.
Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem 

tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: 

"Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui..."
"MAIS FÁCIL DESINTEGRAR UM ÁTOMO DO QUE UM PRECONCEITO".
Albert Einstein


 

FERREIRA GULLAR  

POEMA

Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos - da - Ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.

Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

(março, 1971)  

 

Manual de Sobrevivência

" Depois de algum tempo, você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão 

e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que 

companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos 

não são contratos e nem promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a 

cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a 

tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, 

porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro 

tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende 

que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não 

importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... 

E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo 

de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar 

pode aliviar dores emocionais. Descobre que leva-se um certo tempo para 

construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você

 pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo 

resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a 

crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você 

tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a 

família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar 

de amigos se compreendemos que amigos mudam, percebe que seu melhor

 amigo e você podem fazer qualquer coisa ou nada, e terem bons momentos j

untos. Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida 

são tomadas de você muito depressa... Por isso, sempre devemos deixar 

as pessoas que amamos com palavras amorosas. Aprende que as 

circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós mesmos. 

Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas 

com o melhor que se pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se 

tornar uma pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto. Aprende 

que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você 

não sabe onde está indo, qualquer lugar serve. Aprende que, ou você 

controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa 

ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e 

frágil seja uma situação, sempre existe dois lados. Aprende que heróis

 são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, 

enfrentando as conseqüências. Aprende que algumas vezes, 

a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma 

das poucas que o ajuda a levantar-se. Aprende que maturidade 

tem a ver com os tipos de experiência que se teve e o que 

você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você 

celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você 

supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que 

sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e 

seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. E aprende que não 

são os sonhos que não se tornam realidade, são os sonhadores 

que desistem rápido demais. Aprende que quando se está com 

raiva, tem o direito de se estar com raiva, mas isso não lhe 

dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém 

não o ama do jeito quer que ame, não significa que esse alguém 

não o ame com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, 

mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Aprende que 

nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes 

você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que com

 a mesma severidade com que julga, você será em algum momento

 condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu 

coração foi partido, o mundo não para que você o conserte. 

Aprende que o tempo não é algo que se possa voltar atrás. Portanto, 

plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que 

alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... 

Que realmente é forte, e que pode ir muito longe... 

E que realmente a vida tem valor e que você tem valor na vida.
(W. SHASKESPEARE)

Vinícios de Moraes


Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vive-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama...
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito, enquanto dure.

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante.
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais do que de repente.

Receita de Mulher

As muito feias que me perdoem mas beleza é fundamental.
É preciso que haja Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture em tudo isso
(ou então que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na
República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso que tudo isso seja belo.
É preciso que súbito tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche no olhar dos homens.
É preciso, é absolutamente preciso que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços alguma coisa além da carne: que se os toque como ao âmbar de uma tarde.
Ah, deixai-o dizer-vos que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro, seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem com olhos e nádegas.
Nádegas é importantíssimo. Olhos, então nem se fala, que olhem com certa maldade inocente.
Uma boca fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas no enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras é como um rio sem pontes.
Indispensável que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida a mulher se alteie em cálice,
e que seus seios sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca e
possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas e que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos de forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre flores sem mistério.
Pés e mãos devem conter elementos góticos discretos.
A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face, mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior a 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras do 1° grau.
Os olhos, que sejam de preferência grandes e de rotação pelo menos tão
lenta quanto a da Terra; e que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão que é preciso ultrapassar.
Que a mulher seja em princípio alta ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se fechar os olhos ao abri-los ela não mais estará presente com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha; parta, não vá e que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber o fel da dúvida.
Oh, sobretudo que ele não perca nunca, não importa em que mundo não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade de pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre o impossível perfume; e destile sempre o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


Ausência

Eu vou deixar que morra em mim,
O desejo de amar teus olhos que são doces,
Porque nada poderei te dar,
Senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto, a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto,
E em minha voz, a tua voz
Não te quero ter,
Porque em meu ser tudo estaria terminado,
Quero que só surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada,
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei,
Tu irás e encostarás tua face em outra face,
teus dedos enlaçarão outros dedos,
E tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
Porque eu fui o grande íntimo da noite,
Porque eu encostei a minha face na face da noite, e ouvi sua fala amorosa,
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço,
E eu trouxe até a mim, a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais do que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, dos céus, das aves, das estrelas,
Serão a tua voz ausente,
A tua voz presente,
A tua voz serenizada.




Amor nos três pavimentos


Eu não sei tocar, mas se você pedir
Eu toco violino, fagote, trombone, saxofone.
Eu não sei tocar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo o que você quiser.
Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado
Que eu te arranjo logo.
Você quer fazer verso?
É tão simples... você assina
Ninguém vai saber.
Se você me pedir eu trabalho dobrado
Só pra te agradar.
Se você quisesse!...
até na morte eu ia descobrir poesia.
Te recitava as Pombas,
tirava modinhas pra te adormecer.
Até um gurizinho, se você deixar
Eu dou pra você...


A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa, fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como eu te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quanto te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura e devassa
Que bóia como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.


Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem o fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um trasbordamento de carícias
E só te pede que repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.


Soneto da inspiração

Não te amo como uma criança, nem
Como um homem e nem como um mendigo
Que o grande mal da vida traz consigo.
Não é nem pela calma que me vem
De amar, nem pela glória do perigo
Que me vem amar, que te amo; digo
Antes que por te amar não sou ninguém.
Amo-te pelo que és, pequena e doce
Pela infinita inércia que me trouxe
A culpa é de te amar - soubesse eu ver
Através da tua carne defendida
Que sou triste demais para esta vida
E que és pura demais para sofrer.


Soneto do maior amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando se sente alegre, fica triste
E se vê descontente, dá risada.
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Soneto de véspera

Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?
Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer porque chorei?
Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que distância criou - fria da vida
Imagem tua que compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...


Soneto do amor como um rio

Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.
Este amor que surgiu insuspeito
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.
Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo
E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.
(Montevidéu - 1959)

O verbo no infinito

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
(Rio de Janeiro - 1960)

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
(Montevidéu - 1960)

Minha Namorada

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser, se quiser ser
Somente minha, exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser...
Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento:
Ser só minha até morrer...
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê....
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha, amada, mais amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste para você...
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois.


Samba em prelúdio


Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem si dar.
Eu sem você sou só desamor
Um barco sem mar
Um campo sem flor
Tristeza que vai
Tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém.
Ai, que saudade
Que vontade de ver renascer nossa vida
Volta, querida
Os teus braços precisam dos meus
Meus abraços precisam dos teus.
Estou tão sozinho
Tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida sem você meu amor,
eu não sou ninguém.


Orfeu da Conceição
Corifeu

São demais os perigos desta vida para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente e se deixa no céu, como esquecida.
E se ao luar que atua desvairado vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado porque deve andar perto uma mulher.
Deve andar perto uma mulher que é feita de
música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.
Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.


Para viver um grande amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro - seja lá como for.
Há que fazer de corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada epostar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor.
É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado para chatear o grande amor.
Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade - para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vaidade é desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut, além de ser fiel, ser bem conhecedor
de arte culinária e de judô - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito - peito de remador.
É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e
sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista - muito mais, muito mais que na modista! - para aprazer ao grande amor.
Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, estrogonofes,
comidinhas para depois do amor.
E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre
junto e até ser, se possível, um só defunto - para não morrer de dor.
É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor.
Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva obscura e desvairada não se souber achar a bem-amada para viver um grande amor.


Ferreira Gullar

Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém, fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim pesa, pondera 
Outra parte delira
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte linguagem

Traduzir uma parte na outra parte
Que é uma questão de vida e morte
Será arte??

 


FERNANDO PESSOA

A água da chuva desce a ladeira.

(21-3-1928)

A água da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.

Há muito que contar a dor e o pranto
De o amor os não querer...
Mas eu, que também o não tenho, o que canto
É uma coisa qualquer.

  A ciência, a ciência, a ciência...

(4-10-1934)

A ciência, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!

Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com quanto esforço dado ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!

A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.

  A criança que fui chora na estrada

(22-9-1933)

I

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me, Sem que eu perceba

de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

  A lavadeira no tanque

(15-9-1933)

A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.

Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perderia talvez
Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?

  Ao longe, ao luar

(s. d.)

Ao longe, ao luar,
No rio urna vela
Serena a passar,
Que é que me revela?

Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica
É a vela que passa
Na noite que fica.

  Relógio, morre

(1-3-1930)

Relógio, morre -
Momentos vão.
Nada já ocorre
Ao coração
Senão, senão...

Bem que perdi,
Mal que deixei,
Nada aqui
Montes sem lei
Onde estarei...

Ninguém comigo!
Desejo ou tenho?
Sou o inimigo -
De onde é que venho?
O que é que estranho?  

Caminho a teu lado mudo

Caminho a teu lado mudo

Sentes-me, vês-me alheado...

Perguntas: Sim...Não sei...

Tenho saudades de tudo...

Até, porque está passado.

Do próprio mal que passei.

 

Sim, hoje é um dia feliz.

Será, não será, por certo

Num princípio não sei que

Há um sentido que me diz

Que isso o céu longe e nós perto

E só a sombra do que é...

 

E lembro-me em meia-amargura

Do passado, do distante, e tudo me é solidão...

Que fui nessa morte escura ?

Quem sou neste morto instante ?

Não pergruntes...Tudo é vão.

 

Carlos Drummond de Andrade

Amar

Que pode uma criatura senão entre criaturas, amar?
Amar e esquecer?
Amar e malamar
Amar, desamar e amar
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal,
se não rodar também, e amar?
Amar o que o mar trás a praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amor inóspito, o áspero
Um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte,
e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este é o nosso destino:
amor sem conta, distribuído pelas coisas
pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor
Amar a nossa mesma falta de amor,
e na secura nossa , amar a água implícita,
e o beijo tácito e a sede infinita.
As sem-razões do amor
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabe sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça e com amor não se paga.
Amor é dado de graça, é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários e a regulamentos vários.
Eu te amo porque te amo bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Sentimento do Mundo

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram que havia uma guerra
e era necessário trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso, anterior a fronteiras,
humildemente vos peço que me perdoeis.
Quando os corpos passarem, eu ficarei sozinho
desafiando a recordação do sineiro,
da viúva e do microscopista que habitavam a barraca
e não foram encontrados ao amanhecer
esse amanhecer mais que a noite.
O tempo passa? Não passa
O tempo passa? Não passa no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima cada vez mais,
nos reduza um só verso e uma rima de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar
O meu tempo e o teu, amada, transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada, amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário é um nascer toda hora.
E nosso amor, que brotou do tempo,
não tem idade pois só quem ama escutou o apelo da eternidade.


Amor

O ser busca o outro ser,
e ao conhecê-lo acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: sublime selo que à vida imprime cor, graça e sentido.
"Amor" - eu disse -
e floriu uma rosa embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.

O amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo, não de cultivo alheio ou de sua presença.
Nada exige ou pede. Nada espera, mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas, feitas de sofrimento e de beleza,
Por aquelas mergulha no infinito, e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona aquilo
que foi grande e deslumbrante, o antigo amor, porém,
nunca fenece e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança. Mais triste? Não.
Ele venceu a dor, e resplandece no canto obscuro,
tão mais velho quanto mais amor.

Para Sempre

Por que Deus permite que as mães vão se embora ?
Mãe não tem limite, é tempo sem hora,
luz que não se apaga quando sopra o vento
e chuva desaba, veludo escondido
na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça, é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre
junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino
feito grão de milho.


No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho
tinha uma pedra.
Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


Quadrilha


João amava Teresa
que amava Raimundo
que amava Maria
que amava Joaquim
que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos,
Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e
Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.


O Mundo é Grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

José

E agora, José?
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora,
Você? Você que é sem nome, que zomba dos outros,
Você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José?
Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho,
já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode,
a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio,
não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?
E agora, José? sua doce palavra, seu instante de febre,
sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro,
sua incoerência, seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta;
quer morrer no mar, mas o mar secou;
quer ir para Minas, Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse, se você gemesse,
se você tocasse, a valsa vienense,
se você dormisse, se você consasse, se você morresse....
Mas você não morre, você é duro, José!
Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia,
sem parede nua para se encostar,
sem cavalo preto que fuja do galope, você marcha,
José! José, para onde?


Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo ano novo
Cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido),
Para você ganhar um ano
Não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
Mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo
Até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
Novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
Mas com ele se come, se passeia,
Se ama, se compreende, se trabalha,
Você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
Não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções
Para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
Pelas besteiras consumidas
Nem parvamente acreditar
Que por decreto de esperança
A partir de janeiro as coisas mudem
E seja tudo claridade, recompensa,
Justiça entre os homens e as nações,
Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
Direitos respeitados, começando
Pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano novo
Que mereça este nome,
Você, meu caro, tem de merecê-lo,
Tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
Mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o ano novo
cochila e espera desde sempre.


A Um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Não Passou

Passou?
Minúsculas eternidades deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.
Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão - a tua mão, nossas mãos -
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?
Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.


Acordar, Viver

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte, a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente?
E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora,
algoz do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.


Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse:
Vai, Carlos! ser gaúche na vida.
As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos não perguntam nada.
O homem atrás do bigode é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Poesia

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.


Unidade

As plantas sofrem como nós sofremos.
Por que não sofreriam
se esta é a chave da unidade do mundo?
A flor sofre, tocada
por mão inconsciente.
Há uma queixa abafada
em sua docilidade.
A pedra é sofrimento
paralítico, eterno.
Não temos nós, animais,
sequer o privilégio de sofrer.

 

DIVERSOS - INTERESSANTES 

 

REPARTIR

Que eu faço o bem e de tal modo o faça,

Sem que ninguém saiba o quanto me custou.

Pois o Arquiteto que é DEUS deu-me essa graça.

Que eu seja bom sem parecer que sou.

Que o muito o que Deus me deu , me satisfaça ,

o sedo muito , alguma coisa sobrou.

 E que eu leve essa migalha para onde a desgraça

inesperadamente penetrou.

Que um talher a mais eu tenha em minha mesa,

Íntimo consolo para alegria nossa, onde o faminto

Olvide suas tristezas.

Que em minha trilha jamais tenha cansaço.

E que não coma sozinho o pão que posse ser

Partido por mim em dois pedaços.

(desconhecido)

 

 

POEMINHO DO CONTRA

Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão...

Eu passarinho !

( Mário Quintana )

Eu escrevi um poema triste

 

Eu escrevi um poema triste

E belo, apenas da sua tristeza.

Não vem de ti essa tristeza

Mas das mudanças do Tempo,

Que ora nos traz esperanças

Ora nos dá incerteza...

Nem importa, ao velho Tempo,

Que sejas fiel ou infiel...

Eu fico, junto à correnteza,

Olhando as horas tão breves...

E das cartas que me escreves

Faço barcos de papel!

MARIO QUINTANA
do livro "A cor do invisível'

 


MULHER

Mulher preta,

Mulher branca,

Mulher rica,

Mulher pobre,

Mulher de luta,

Mulher da vida,

Mulher desempregada,

Mulher sofrida,

Mulher trabalhadora,

Mulher mãe,

Mulher esperança,

Mulher Maria...

Mulher...todos os dias.

Em teu corpo carregas como ninguém...e só tu, o segredo da vida !

(Thomé)

 

 

SERENIDADE

 

Se um dia te bater à porta a glória

recebe-a com carinho e gentileza,

não ostente aos outros , por grandeza,

nem te enfeites na luzes da vitória.

Aceita o seu abraço e a sua história

e lhe beijes a mão de realeza,

mas não deixes pesar em tua pureza

e nem tragas sempre na memória.

 

E se um dia chegar a Ti o fracasso

recebe-o com humildade e não insiste

do coração na dor e que alguém note.

Vai seguindo na vida o calmo passo:

que nenhuma conquista te conquiste

e nenhuma derrota te derrote.

( Suelly Corrêa Gomes)

 

 

PÃO DE CADA DIA

Thiago de Mello

 

Que o pão encontre na boca

O abraço da canção

Inventada no trabalho.

Não a fome fatigada

De um suor que corre em vão.

 

Que o pão do dia não chegue

sabendo o resto de luta

e o troféu de humilhação.

Que o pão seja como flor

festivamente colhida

por quem deu ajuda ao chão.

 

Mais do que flor, seja o fruto

nascendo límpido e simples

sempre ao alcance da mão.

Da minha e da tua mão.

 

 

NATAL

 

Se o menino se fez DEUS...

Porque o Natal não é todos os dias ?

 

Como é falso o passar dos andantes,

nestes períodos de festas e Natal.

Tudo se torna mais meigo mais puro,

na ânsia de quem libertou-se do mal.

 

...É o menino é a festa é a pressa,

de chegar não sei onde, mas sempre chegar.

Pisando e passando ao largo da vida,

sem olhar, sem sentir o olhar do olhar.

 

E o menino se fez DEUS é nascimento.

De um tempo quem sabe um pouco melhor

Se percebo a vida desse jeito.

Se a manjedoura não é vista com respeito

Pôr que o Natal não é todos os dias ?

 

( Thomé – Natal de 1992 )

 

INOCÊNCIA

São vistas nas praça ,

no paranóico vai e vem

dos balanços e gangorras.

Débeis despreocupadas

Não tem a palavra "tempo"

no seu exíguo vocabulário.

Seus joelhos são marcados das tantas

vezes que então,

entre correrias e risadas,

tropeçam caem no chão.

 

E absurdamente choram

somo se , por grande dor, atravessados.

Não sabem que houve um homem que,

tendo sido crucificado, conhecida crueldade,

por si próprio, não chorou.

 

Fazem perguntas absurdas,

sobre assuntos triviais.

À sombra da ignorância,

querem saber, sempre mais;

de tamanho insignificante ,

nada sabem da maldade

de quem com qualquer sorriso cínico

conquista sua amizade.

 

As vezes são maltrapilhos,

barrigudinhos , de pés no chão.

e dá uma certa tristeza

quando nos chamam de "moço"

e pedem um pedaço de pão.

 

Contudo, nem assim são menos belos

A menina do seus olhos,

É como um canto do céu,

Onde refulge uma estrela

Ou brilha um raio de sol.

E, apesar do jeito frágil

e do corpo pequenino,

oxalá, o homem pudesse,

ser toda a vida um menino.

 

(Bartolomeu)

 

AVAREZA

Certa manhã no banheiro

antes de ir para o trabalho,

do espelho parou diante,

meditando pôr um instante

com ar de tranqüilidade.

- "sou mesmo um cara de sorte!"

esfregando a mão no rosto,

experimentando a barba.

Possuo vários empregado

   um trabalho bem remunerado,

uma casa luxuosa,

posso ter, quantos carros quiser.

É...dinheiro compra tudo !

Roupas...amigos...e até mesmo mulher.

Mas nem sempre foi assim !

Eu dei um "duro danado"

até aprender que na vida,

quem não pisa, é pisoteado.

Hoje me chamam doutor.

É até meio engraçado,

nem tenho curso superior !

e há quem diga que dinheiro,

não compra felicidade.

E, enquanto enfiava o braço

na manga do paletó,

sentiu forte dor no peito,

como se o coração desse um nó.

Então, contraindo o rosto,

num grito de desespero,

tombou morto no banheiro,

sem perceber que a vida inteira,

Havia sido um escravo,

à serviço do dinheiro.

 

(Bartolomeu)

 

O VELHO

No fim da rua,

havia ao largo,

um descampado onde a vizinhança

no fim do dia, jogava o lixo.

No descampado em meio ao lixo,

havia trapos ratos e restos

e tinha um velho que ali, vivia.

No fim da rua, no fim do dia,

havia lixo, trapos e restos

e havia a fome que o velho tinha.

Enquanto descia à noite,

qual fosse um escuro véu,

tendo a lua e as estrelas,

como bordado, bonito no céu,

o vento rompia o silêncio,

assobiando, na porta da gente,

uma melodia meio triste

como se fosse a voz do velho

dizendo à todos que tinha frio.

No fim da rua,

no fim do dia,

havia lixo, trapos e restos.

Havia um velho que tinha fome;

fazia frio e se ouvia choro,

no descampado da avenida,

havia ratos, trapos e restos.

Havia um velho no fim da vida.

Bartolomeu


EU ETIQUETA

(Carlos Drumonnd de Andrade)

 

Em minha calça está grudado um nome

que não é meu de batismo ou de cartório,

um nome... estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

que jamais pus na boca, nesta vida.

Em minha camiseta, a marca de cigarro

que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produto

que nunca experimentei

mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

de alguma coisa não provada

por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

minha gravata e cinto e escova e pente,

meu copo, minha xícara,

minha toalha de banho e sabonete,

meu isso meu aquilo,

desde a cabeça ao bico dos sapatos,

são mensagens,

letras falantes,

gritos visuais,

ordens de uso, abuso, reincidência,

costume, hábito, premência,

indispensabilidade,

e fazem de mim homem-anúncio intinerante,

escravo da matéria anunciada.


Estou, estou na moda.

É doce estar na moda, ainda que a moda

seja negar a minha identidade,

trocá-la por mil, açambarcando

todas as marcas registradas,

todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

eu que antes era e me sabia

tão diverso de outros, tão mim-mesmo,

ser pensante, sentinte e solidário

com outros seres diversos e conscientes

de sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio,

ora vulgar, ora bizarro,

em língua nacional ou em qualquer língua

(qualquer principalmente).

E nisto me comprazo, tiro glória

da minha anulação.

Não sou - vê lá - anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

para anunciar, para vender

em bares festas praias pérgulas piscinas,

e bem à vista exibo esta etiqueta

global no corpo que desiste

de ser veste e sandália de uma essência

tão viva, independente,

que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora

meu gosto e capacidade de escolher,

minhas idiossincrasias tão pessoais,

tão minhas que no rosto se espelhavam,

e cada gesto, cada olhar,

cada vinco da roupa

resumia uma estética?

Hoje sou costurado, sou tecido,

sou gravado de forma universal,

saio da estamparia, não de casa,

da vitrine me tiram, recolocam,

objeto pulsante, mas objeto

que se oferece como signo de outros

objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

de ser não eu, mas artigo industrial,

peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem,

meu nome novo é coisa.

Eu sou a coisa, coisamente

 

 

FELICIDADE REALISTA 

(Mário Quintana)

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote
louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser
magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema:
queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.
E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos
conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar
pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente
apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes
inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos
sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
T er um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você
pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um
parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando
se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se
sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco
que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um
pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato,
amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza,
instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente.
A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio.
Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta
demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não
se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e
deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e
não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso
coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

 

A RUA DOS CATAVENTOS

Mario Quintana

 

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, a cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha.

 

Hoje, dos meus cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem nada.

Arde um toco de vela amarelada,

Como único bem que me ficou.

 

Vinde ! Corvos, chacais, ladrões de estrada !

Pois dessa mão avaramente adunca

Não haverão de arrancar a luz sagrada !

 

Aves da noite ! Asas do horror ! Voeja !

Que a luz trêmula e triste como um ai,

A luz de um morto não de um morto não se apaga nunca

 



TEXTO DE DESPEDIDA DE GABRIEL GARCIA MARQUES

  “Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo, e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo.Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e degustaria um bom sorvete de chocolate." "Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente e me jogaria de bruços ao solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma." "Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mário Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas." "Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes – te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos, e viveria enamorado do amor. Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se

apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento." Tantas coisas aprendi com vocês, os homens..." "Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta, com sua pequena mão, pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro, de cima para baixo, para ajudá-lo a levantar-se." "São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas finalmente, não poderão servir muito, porque quando me olharem dentro dessa maleta (laptop), infelizmente estarei morrendo." Boa Noite. Feliz 2003- Muita paz e muita luz.  

 

Estatuto de los hombres

 

Thiago de Mello

 

Artículo 1.

Queda decretado que ahora vale la vida,
que ahora vale la verdad,
y que de manos dadas
trabajaremos todos por la vida verdadera.

 

Artículo 2.

Queda decretado que todos los días de la semana,
inclusive los martes más grises,
tienen derecho a convertirse en mañanas de domingo.

 

Artículo 3.

Queda decretado que, a partir de este instante,
habrá girasoles en todas las ventanas,
que los girasoles tendrán derecho
a abrirse dentro de la sombra;
y que las ventanas deben permanecer el día entero
abiertas para el verde donde crece la esperanza.

 

Artículo 4.

Queda decretado que el hombre
no precisará nunca más
dudar del hombre.
Que el hombre confiará en el hombre
como la palmera confía en el viento,
como el viento confía en el aire,
como el aire confía en el campo azul del cielo.

 

Parágrafo único:

El hombre confiará en el hombre
como un niño confía en otro niño.

 

Artículo 5.

Queda decretado que los hombres
están libres del yugo de la mentira.
Nunca más será preciso usar
la coraza del silencio
ni la armadura de las palabras.
El hombre se sentará a la mesa
con la mirada limpia,
porque la verdad pasará a ser servida
antes del postre.

 

Artículo 6.

Queda establecida, durante diez siglos,
la práctica soñada por el profeta Isaías,
y el lobo y el corredio pastarán juntos
y la comida de ambos tendrá el mismo gusto a aurora.

 

Artículo 7.

Por decreto irrevocable
queda establecido
el reinado permanente
de la justicia y de la claridad.
Y la alegría será una bandera generosa
para siempre enarbolada
en el alma del pueblo.

 

Artículo 8.

Queda decretado que el mayor dolor
siempre fue y será siempre
no poder dar amor a quien se ama,
sabiendo que es el agua
quien da a la planta el milagro de la flor.

 

Artículo 9.

Queda permitido que el pan de cada día
tenga en el hombre la señal de su sudor.
Pero que sobre todo tenga siempre
el caliente sabor de la ternura.

 

Artículo 10.

Queda permitido a cualquier persona,
a cualquier hora de la vida,
el uso del traje blanco.

 

Artículo 11.

Queda decretado, por definición,
que el hombre es un animal que ama,
y que por eso es bello,
mucho más bello que la estrella de la mañana.

 

Artículo 12.

Decrétese que nada estará obligado ni prohibido.
Todo será permitido.

 

Traducción : Mario Benedett