RETIRANTES DO SUL

( Texto premiado no concurso histórias do trabalho )

DORALINA DA CRUZ TOMAZAZZONI

 Urbe vívida, flamante, aranha que arrebata.

Caipira sofrido, ingênua, mosquito que se enreda.

O encanto esmorece, a trama comprime, a presa se debate

 

Ameaçadora, a fome batia a nossa porta. A cidade que nos recebera com ares de amiga,  há alguns meses, agora nos expulsava cruelmente . O aluguel das duas peças havia sido pago, restaram míseros trocados. Sem emprego nem dinheiro, meu pai percebeu a urgência na mudança. Procurou a empresa de construção de estradas em que trabalhava antes, conseguiu serviço. Nosso destino , portanto, era o local em que trabalharia.

O pai voltou do acampamento no caminhão da empresa, que vinha à cidade buscar material e mantimentos uma vez por semana. Ele perguntou ao motorista quando retornaria e se havia lugar para nós no caminhão. O homem disse que nos levaria no outro dia de madrugada. Combinaram que o aguardaríamos na avenida para atacá-lo quando passasse. Não tínhamos relógio, de noite  as horas se perdiam. O medo de perder a condução tirou o sono do pai. No primeiro cantar dos galos , ele nos acordou. Além de esperar o caminhão, queria sair do cortiço ainda escuro, evitando que os moradores nos vissem com as trouxas nas costas. Assim , antes de haver sinal da aurora, ganhamos a rua.

Os mantos da noite encobriam a cidade e, enquanto o sol não se impunha, o inverno espichava suas garras frias por onde pudesse. O que a gente  conseguia enxergar a dois metros de distância era apenas um vulto. Tomamos a direção da avenida, rota do caminhão. O pai carregava uma trouxa feita com lençol, estofada com as cobertas e as roupas. No meio da trouxa, o penico, objeto inseparável de minha mãe, recurso nos desapegos das necessidades fisiológicas. Ela levava um saco de estopa com panelas , pratos , canecos talheres. A mim coube a tarefa de levar um saquinho contendo o de comer -   farinha de milho, graxa bovina e sal. Na mão esquerda , segurava o candeeiro a querosene apagado, mesmo porque consistia num vidro comum, uma tira de pano feito pavio, sem proteção para as chamas. Tentar acendê-lo seria inútil. Tinha de manter o vidro em pé, se derramasse o líquido, ficaríamos sem luz na noite seguinte.

Na avenida mal iluminada, os trilhos do bonde erma nossos guias na escuridão. Tínhamos que olhar para a direita a ver se avistássemos o caminhão. O pai ia na frente a passos largos, puxando a caravana, como sempre fazia. De repente , seu vulto desapareceu. Apressei-me vislumbrei o buraco do bueiro e entendi o que ocorrera. Meu consolo foi ouvir seus gemidos, sinal de vida. A vala, aproximadamente dois metros de profundidade por um de altura, era aberta sob os trilhos. O pai bateu com as costas na parede de pedra. Machucou uma perna, pouca coisa. A trouxa com as cobertas lhe protegeu a cabeça. Saiu de lá das funduras com dificuldades, fedendo, era a passagem do esgoto cloacal.

Refeitos do susto, continuamos a caminhada. O mau cheiro ajudava a seguirmos o pai. Perto da estrada de rodagem, saída da cidade, um veículo grande se aproximou. O reflexo dos faróis impedia que  o identificássemos. O pai, certo de ser o caminhão, fez sinal para que parasse. Ao passar , vimos que era um ônibus. Parou. O motorista desceu e foi ao nosso encontro, queria certificar-se de que alguém tinha feito sinal. O pai desculpou-se , e disse a ele que julgara  ser um caminhão. Bem que gostaríamos daquela condução, mas faltava-nos dinheiro para as passagens e nossos trajes eram inadequados a um veículo de passageiros.

Chegamos à estrada de chão. O dia clareava. No terreno varzeado, em ambos os lados da estrada, a geada branqueava o capim e os arbustos, como se estivessem cobertos de algodão. E até os pedregulhos continham gelo. Eu vestia um casaco velho do pai, cujas mangas me cobriam as mãos. Mesmo assim, os dedos enregelaram, não conseguia segurar o candeeiro e o saquinho. O pai teve de epgá-los. Os pés , duros e cansados saíam dos tamancos e a pele tocava as pedrinhas ásperas gélidas.

Nem carroça nem carreta, muito menos caminhão para nos dar carona. As carroças passavam em sentido contrário, carregadas de produtos coloniais para vender na cidade. Sem ânimo, a minha vontade era de parar, mas seria perder tempo, congelar e ficamos mais amuados. O patriarca ordenava seguir em frente, depressa, precisávamos chegar com  dia ao destino, cuja a distância imaginava menor.

Por volta de meio-dia , menos afastados da “terra prometida” , paramos à beira de uma sanga. O pai fez fogo, a mãe preparou um angu com o pedaço de lingüiça comprado numa venda, almoçamos. Aliviados da fome, a estrada nos pareceu mais acolhedora.

Ao entardecer, encontramos um ranchinho  beira-chão no corredor da estrada, perto do alambrado. Pensávamos passar a noite ali, mas nuvens no horizonte faziam o pai entever temporal, uma das pouquíssimas coisas que o amedrontavam. Mas não era só  o vento e a chuva que davam medo. O corredor era passagem das tropas de gado, havia perigo em ficar no ranchinho. Nesse meio tempo, os carroceiros apontavam na coxilha, retornando da cidade. O pai os interpelou e perguntou se sabiam de alguma cas por perto em que pudéssemos  passar a noite. Respoderam que sim, dali a meia légua havia um galpão, iriam pernoitar lá. Pedimos passagem numa das carroças e seguimos com eles.

Chegamos com a noite. O dono da precária estalagem, ao ver uma mulher e uma menina, colocou-nos numa parte do galpão com divisórias de tábuas, separando-nos dos carroceiros. Depois da janta, os homens se reuniam para conversar. Contavam piadas sujas e gargalhavam. E nós engolíamos em seco. Em dado momento, um deles falou que deviam respeitar, no outro lado da parede haviam mulheres. Um segundo homem, porém argumentou: “Gente que anda pelas estradas com trouxas nas costas não é de confiança. Precisa-se tomar cuidado, podem ser perigosos.” A mãe chorou ao ter sua dignidade posta em dúvida. E eu, ofegando com o peso da humilhação, senti uma forte pressão a abrir chagas em minha inocência.

Alta noite, os homens silenciaram, dormiram. Nós só pregamos olho depois que nossas emoções se acalmaram. Ao clarear do dia, embarcamos na mesma carroça e fomos até o lugar  onde o pai iria trabalhar , abrindo as valetas laterais da estrada nova. A carroça nos deixou no barranco. O pai tratou de procurar madeira, eu e a mãe cortamos macega. Enquanto eles  montavam as esteiras para armar o ranchinho beira-chão, eu procurava uma laje adequada para assar o bolo de pedra. Aproveitei para matar a curiosidade sobre o local. O cenário nada mostrava de extraordinário, fora o arcabouço  da estrada, uma fita vermelha espichada pelo campo verde. O gado pastava tranqüilo e as escavadeiras caterpillar ronronavam ao longe.

Nossa morada ficou pronta antes da noite. O pai foi à cantina do acampamento buscar viveres. E eu, sem bois soltos por perto, saboreava o sossego do novo lar.

Doralina da Cruz Tomazzoni

É professora em Porto Alegre

 

 

LEONARDO DI CAPRIO

 

*Geisa Cássia Romani de Abreu

 

Para que se compreenda na íntegra o episódio ocorrido em junho de 1998, é importante uma apresentação prévia do cenário e das pessoas envolvidas.

 

Sou trabalhadora da indústria petrolífera há dez anos. Tradicionalmente, esse ramo de atividades possui um efetivo operário predominantemente masculino. Por questões legais ou sei lá por quê, abriu-se um espaço para as mulheres nas áreas de produção, redutos masculinos. Somos 10% do efetivo total, usamos uniforme padrão, capacete, botina de segurança. Compartilhamos as mesmas máquinas, o mesmo ruído, o mesmo cheiro de hidrocarbonetos; também suportamos juntos o  estresse do horário de turnos de revezamento, madrugadas, domingos, feriados, natais, sol, chuva, vento. Tudo isso em clima de “fraternidade” , onde todos, homens e mulheres têm funções e responsabilidades idênticas.

Machismo? Por que essa idéia apareceu na cabeça do leitor ? Pois atualmente ele vem se materializando na minha.

 

Eu achava , realmente , que a presença feminina naquele ambiente rude fosse a prova final de que todos são iguais. Pensava que a idéia do machismo havia se dissipado pelo convívio que partilhávamos.

 

Eis que, de repente, ele surge. Vivo, amplo e rancoroso, um machismo sufocado e sofrido, mas que sempre estivera lá, disfarçado por homens que faziam esforço para demonstrar que haviam evoluído.

 

Aconteceu quase que por acaso. Eu, inocentemente – Freud concordaria? – invadi o cerne, o último sustentáculo do homem-macho.

Dentro da sala de controle de instrumentos existe um quadro mural. É igual a todos os murais de empresas: informações gerenciais, política da qualidade ISO-9000, anúncios de compras e venda – geralmente de carros e motos – piadinhas e...mulheres lindas , peladas, vestidas, loiras , morenas, mas sempre lindas.

 

Como já disse anteriormente, eu achava que era um deles. Era tudo social, tudo igual para todos. Então, eu não podia me ofender ou ficar ruborizada com aquelas fotos. Mas, é claro, eu não as admirava. Respeitava, isso sim, o direito sagrado dos homens de admirarem mulheres bonitas. Era justo. O que não era justo eram as comparações que faziam: - Isso sim é que é mulher! ““,- Toda mulher tinha que ser assim ! “ , e ainda,  “ – Vocês tem que se cuidar...” E assim por diante. Tentávamos explicar a eles que aquelas mulheres não são lindas daquele jeito. Elas são virtuais, maquiagem, luz, sombra, computador, etc. As mulheres reais são diferentes das “deusas”. Estávamos quase pedindo desculpas por não ser mos deusas.

 

Mas, um dia , não sei exatamente por quê, eu me insubordinei. Achei um jornal velho, que trazia na capa uma foto em preto e branco do Leonardo Di Caprio. Claro, esse rapaz é lindo. Todo mundo sabe disso, até meus colegas da fábrica. Era uma foto de, mais ou menos 10 x 10cm. Recortei e fixei aquele rostinho inocente no “nosso” mural social. Escolhi um canto discreto, oposto à Carla Perez, colorida 20 x 30cm.

 

Que afronta! No dia seguinte a reação: a foto sumiu! Não deram ao Leonardo a mesma chance que deram à Carla Perez. Não me deram a mesma chance. É claro, fiquei ofendida, confusa também. Senti que havia provocado rancores. Mas, e se a foto tivesse caído acidentalmente? Afinal era papel jornal, que rasga com facilidade. É diferente do papel encerado d revista Playboy. Eu precisava ter certeza. Então me lancei à procura de outra foto, qualquer Leonardo Di Caprio, em qualquer revista ou jornal. Não precisei me esforçar muito. Afinal, ele está em todos os lugares. Achei uma foto idêntica, o mesmo sorriso tímido, em preto e branco. Coincidência provincial...

 

Ao fixa-lo outra vez no mural, usei o requinte de crueldade que me causou euforia. Escrevi acima da cabeça do moço um desafio: “I' M BACK”. Se meus colegas operários  não causaram o desaparecimento do primeiro Leonardo, eles achariam graça da frase. E é justo citar agora muitos colegas que realmente puderam rir, sem sentirem-se ameaçados por um rostinho bonito. Se eu não os reconhecesse nesse momento, não me qualificaria para escrever essa polêmica.

No dia seguinte, recebi a resposta às minhas dúvidas. A foto estava completamente rasgada, com a frase : “I' M BACK pregada sobre os destroços daquele rostinho lindo, estampado em preto e branco, numa folha de jornal.

 

Vedeta. Os machos, ameaçados, mataram seu inimigo poderoso. Até aí eu não me surpreendi tanto. E já me senti satisfeita por descobrir que eu posso aceitar o desfio Carla Perez com mais tranqüilidade  que meus colegas em relação ao Leonardo Di Caprio. Um ponto pra mim pela baixaria da reação deles. Sim, é claro que os colegas se sentiram invadidos no seu direito de usar o “nosso” quadro-mural para expressarem seus desejos. Um homem entrou no território deles. E logo ele, um homem sensível, quase uma criança, que todas as mulheres admiram. Até eu, uma colega que se veste igual a eles, us capacete como eles.

 

Leonardo Di Caprio foi trucidado. Mas o incrível, bizarro e profundamente significativo, foi que ao seu lado, onde jazia morto e derrotado, numa envergonhada foto rasgada, em preto e branco de papel jornal, pregaram um pano de limpeza.

Será que alguém ousaria interpretar o papel desse pano? Eu lhes direi o que entendi. Meus colegas gritaram para mim, em voz alta, máscula e ameaçadora: - “lugar de mulher é na cozinha!!! “ E não admirando os homens bonitos do mundo. Afinal, admirar o sexo oposto é privilégio masculino. Cabe às mulheres serem admiradas – ou esculachadas  e cabe aos homens deseja-las. O contrário, eles não entendem bem, ou mais grave ainda , o contrário não os deixa tão à vontade  com sua virilidade.

 

A experiência Di Caprio foi perfeita. Deixei ainda que ficasse exposto esse retrato do machismo – a foto rasgada e o pano – por muitos dias. Ficou chato, todos queriam saber o que era aquilo. E os colegas que fizeram esse trabalho, devem ter ficado envergonhados para remover sua confissão de ciúme. Talvez eles esperassem que eu removesse imediatamente a foto, enfurecida, mas com a lição aprendida. Eu nada fiz. Ri muito, senti muito prazer com s provocações e repeti, silenciosamente para mim mesma “objetivo atingido” . Era como uma vitória, vê-los assumir seu machismo. Outro ponto pra mim. Dois a zero no placar geral.

 

Os restos mortais de Leonardo Di Caprio desapareceram misteriosamente. O pano ficou um pouco mais. Depois sumiu também.

 

Descobri muitas coisas com essa experiência. Uma delas é que eu não sou exatamente um deles. Sou uma mulher que se veste igual a eles. Essencialmente, sou uma  fêmea de espécie humana, infiltrada num ambiente de machos, que esperam que eu mantenha meu papel de presa, mesmo que não haja caçador. Eu nunca deveria SER o caçador.

 

Aprendi muito, ms me decepcionei com alguns homens que trabalham comigo. Achava que esse papo de machismo era coisa ultrapassada. É ultrapassada para mim, da maneira como encaro minha condição de mulher. Mas, para alguns homens ele está disfarçado, amargurado...Sofrido machismo!

Obrigada Leonardo.

 

* Geisa Cássia Romani de Abreu, industriaria