Esse texto eu escrevi a pedido e junto com minha mãe. Fala sobre sua história e

sobre  minha avó, com quem tive a  oportunidade de conviver muito pouco. 

Minha mãe estava doente e  na sua alegria , encaminhava corajosamente sua

passagem por essa vida. 

Essa história acalentou sua lembrança nos seus últimos momentos.

 

TRIBUTO A MARIA BASILÍCIA

A vida me faz novamente pensar, são setenta e sete anos de caminhada. O olhar se perde no horizonte como que refazendo parte da história. Ela me vem na lembrança seguidamente, como um imensurável quebra-cabeças. Ás vezes acho que esse tempo que cavalga junto com a gente, galopa lentamente e nos coloca frente a essas relembranças. É como voar em campos abertos trilhados por animais domésticos e árvores nativas dos nossos rincões. O pensamento, liberto das agruras, travessuras e de milhares de fragmentos das nossas vidas cotidianas, é que dá o sentido e a direção da liberdade que se quer. Às vezes, voar e sonhar é preciso !

Tal qual a força e a dança do vento minuano, vejo meus filhos (Jorge , Eliana, Jairo , Antonio , Paulo e Roselaine que se juntou a nós alguns anos depois. ) e netos (Camila, Denise, Leandro, Marcelo, Marcos Vinícius, Bárbara e Henrique, Márcia, Ana Paula, Marília e Felipe ) e o bisneto Bruno, noutros embalos da vida. Isso me alimenta e muitas vezes me deixa feliz. Alguns desses fragmentos se constituíram em alicerce da caminhada e melhoraram nossas vidas. Outros nem sempre foi fácil de compreender. Perdi dois filhos ainda novos (Francisco e Manoel )

O pensamento me invade sem que eu lhe conceda permissão para tal. São peças de um jogo chamado vida que se amontoam na minha frente como relâmpagos que se lançam descontrolados e fazem formas benfazejas num céu com espaço para todos. É nesses relampejos que vejo sua imagem , sua fisionomia. Recordo seus conselhos, seus afagos, seus desencantos e suas histórias... muitas histórias que forçam a entrada da minha mente sem que eu consiga dominar. É um pensamento bom. Penso nela, minha mãe.

Não tinha identidade constituída oficialmente , mas tinha um nome, Maria, de Nossa Senhora, Basílicia, de templo, de grandeza. Mista de guria /moleque se tornou rebento numa madrugada fria dos idos do século passado, nas costas do Piratini, Rio Grande do Sul, local conhecido como Passo da Ponte.

Num rancho de pau-a-pique barreado, luz de lamparina com querosene e vela de sebo, se embrenhavam num pequeno quarto minha avó (Carolina Rodrigues Dias) a parteira de nome Chiquinha ,a Dona Chiquinha, e uma das tantas comadre que vinha dar apoio ao ato da vida.

Noite escura o vento minuano soprava assobiando sons que o Rio Grande conhece. Mexia e remexia a chama da lamparina. Ao lado, a conversa em tom mais baixo, talvez para não acordar a criança que já anunciava seu nascimento.

Na pequena cozinha um fogão a lenha era alimentado com achas de lenha para a água quente. Isso era determinação da parteira. Ao lado, meu avô um guasca campeiro, rosto rude das lidas rurais, chamado Paulino Dias , de poncho à beira do fogão, desafiava o nervosismo sorvendo um chimarrão em cuia de porongo. O olhar através da janela questionava levemente o futuro.

Não havia relógios. As horas demoravam a passar. A referência era o cantar do galo e a clareza do dia que no inverno demorava a surgir. O movimento na outra peça anunciava a chegada do rebento. A fala com vigor de dona Gê ao solicitar água quente, foi determinante para o movimento da sala ao lado. Aquilo foi rápido e logo, logo saiu do quarto e, com o mesmo tom de voz, anunciou nasceu Maria ! É mulher. Paulino não ficou nem mais triste e nem mais contente, esse nascimento marcava mais de dez filhos na sua trajetória. Não esboçou qualquer reação, situação típica dos sentimentos e valores constituídos pelos homens do rincão que tinham muitos filhos.

Choro novo, vida nova se constituía. Meu avô só foi conhecer direito Maria depois de levar Chiquinha para casa, de charrete, algumas léguas dali. Pagamento, somente o agradecimento e duas galinhas pedrês. Certamente ficaria agradecida. Afinal era a parteira da região e já estava calejada com esses macetes.

Maria ia crescendo, assim como crescem os filhos dos trabalhadores rurais empobrecidos. Tão cedo já ajudava nas lidas rurais e da casa. Buscar água na cacimba , pegar achas de lenha para o fogão, dar comida para os bichos na volta da casa, levar comida para o pai na lavoura e brincar. Brincadeira de rincão é trabalho mesmo.

O outro tempo servia para abraçar e subir nas árvores frondosas que, junto com as figueiras e alguns pés de laranjeira, se constituíam em parte da natureza em torno da casa.

As visitas não muito constantes traziam informações de um outro mundo ainda não conhecido, a cidade. Na cidade já tem luz elétrica , tem até bonde... eu não sei se teria coragem de andar, diziam os andarilhos e parentes que chegavam para pouso.

Maria Basílica sonhava , como sonham as pessoas que vivem do alento pobre do meio rural. Fitava o olhar no horizonte como se buscasse uma luz. E a luz surgia, das estrelas, dos vaga-lumes , das lamparinas.

Maria tinha na pele a marca da vida. Mista de negro com índio, reproduzia no caráter, nas suas ações a sua maneira de ser. Sua destreza de lidar com o cotidiano campeiro e sua memória de lembrar fatos e objetos, fez criar em sua volta um certo ar de mistério com as coisas da vida.

Nós que conhecemos o rincão e as lidas campeiras do meio rural, sabemos o quanto é difícil viver e sonhar. A falta de terra para plantar, as geadas que branqueavam os cerros faziam a preocupação do meu avô, a cada ano que passava.

Na despensa as carnes guardadas na banha iam diminuindo cada vez mais. A fala das comadres reforçavam um quadro não muito alentador, esses guris e essas gurias precisam trabalhar, precisam ajudar em casa. Os homens se perderam no exército militar da coluna Prestes, nunca mais se soube deles. As mulheres bem que poderiam ir para a cidade, dizem que lá é bem melhor. A Maria, por exemplo, dá pra coisa, é esperta, ágil , trabalhadora e lá eles sempre precisam de gente assim.

Com quatorze anos teve uma paixão. Laudelino ! E com ele viveu alegrias e tristezas e três filhos ( José, o mais velho, Valmor que morreu de crupe com dois anos e William, Vilhão)

Isso tudo impulsionava sua ida para a cidade, se quiseres posso ver alguém que quer, dizia uma comadre. Foi assim , ninguém perguntou coisa alguma para alguém. Meu avô e minha avó decidiram. Maria vai prá cidade. Ela só ficou sabendo quando já estava tudo arrumado (serviço, casa, tipo de trabalho etc). Vai ser bom pra ti, dizia meu avô. Minha avó sequer se pronunciava. Talvez como que imaginando: quem vai, não volta mais. E assim foi.

Parte de todos se perderam no caminho. Isso é uma marca que fica registrada em cada um de nós. Com algumas coisas da vida, a gente nada pode fazer. Dizem que é destino.

Ela nunca falou das suas tristezas, da ruptura forte e dura que ali se colocava. Na verdade, ninguém falava nada de ninguém. O consolo. Ah ! Pode ser as estrelas, a luz dos postes, o barulho do bonde... e as lojas... as lojas ! Era isso, só isso. Na bagagem, a roupa do corpo, filhos e o aprendizado das lidas do campo e da casa. Se despedir da árvores, figueiras, laranjeiras, das irmãs (Olvidia, Vidinha, Zulmira, Pequena, Belarmina, Currucha e da Alaíde, Nonóca. Não ! isso é forte demais. Um único alento. Melhorar de vida prá encontrar os outros depois.

O galo cantando era o prenúncio do dia amanhecendo. Saiu de charrete em direção à cidade, as rodas rangiam na madrugada de Piratini e depois para Pelotas. Os caminhos de chão batido muito mais que estradas se constituíam na realidade vivenciada pelos cavalos que levavam sonhos e esperanças por aqueles caminhos .

Os campos brancos de geada faziam parte do cortejo que ela não sabia, não teria mais volta. Cansada dormiu boa parte da viagem. Na hora do almoço uma parada em baixo de uma árvore perto de água corrente foi outro acalanto. Fogo de chão, feito com lenha de mato, água no fogo para o chimarrão, panela de ferro preta, carreteiro de carne salgada era o que tinha para o almoço. A vontade de comer fazia parecer que a fome batia nas costelas. Após a sestear com os guris, a continuidade da viagem.

Pelotas parecia distante. As primeiras casas acolheradas surgiram com o anúncio que a cidade estava perto. Chegaram à noite. A lembrança das luzes veio à memória , mas eram as estrelas o seu guia. As luzes, só nas grandes casas. Na campanha, só estrelas, lamparinas e vaga-lumes.

Maria chegou... agora outro mundo se colocava. Começava a ajudar (trabalhar) na casa de uma dona que não sei o nome. Sei que tinha casa grande, empregadas e boas condições financeiras . Foi descobrindo as coisas pouco a pouco. A cidade se mostrava diferente dos sonhos. A curiosidade, a perspicácia fez com que logo, logo tomasse conta da casa por inteiro. A dona da casa gostava cada vez mais de Maria Basílicia.

Foi olhando as cartilhas , as figurinhas, que veio o interesse e a curiosidade por identificar as letras. Numa das andanças foi solicitada que fosse ao banco retirar um dinheiro. Ninguém mede a tristeza e a vergonha que ela passou quando o caixa pediu que assinasse o recibo. Não sabia assinar. Essa vergonha ela jamais iria passar outra vez. Nas cartilhas aprendeu a ler, e leu... Escrever, só o suficiente para assinar o nome e, por fim, tirar sua identidade. Da leitura passou de Júlio Verne, Jorge Amado e Érico Veríssimo a Harold Hobbim, entre tantos outros.

Bonita no seu jeito , encontrou um novo companheiro: Cândido Antônio Barcellos , o Candoca . A vida lhe deu outro alento e amor e, dele nasceu Urpio, Irene e Francisco (Chiquinho).

Maria Basilicia voltou uma única vez ao rincão onde nasceu. Foi com os netos (Jorge e Eliana) filhos de Irene. Cada canto, cada ponte , cada árvore lembravam sua infância. A destreza com as letras era incompreensível para aqueles que a cercavam. Como pode uma pessoa não saber escrever e ler com tanta propriedade ? Lidava com as cartas , com as ervas de chás, com os sonhos como lidava com a vida. Ela sabia tantas histórias que encantava as pessoas que com ela conviviam.

As vezes quando as agruras e as dificuldades financeira batiam a sua porta , ela jogava no bicho... e acertava. Diziam, joga mais. Ela sabia, jogar só quando era preciso. Só os mistérios da vida respondem a essas questões.

Entre o inverno e a primavera de 1967, Maria Basilicia vai para a casa de um dos seus filhos em São Paulo conhecer seus outros netos (Isabel Cristina, Isandra e Franciane) e lá num alento de tranqüilidade transcendeu a temporalidade. Morreu Maria ! Com 75 anos de idade, assim como morremos todos nós... a cada hora , a cada dia. Ficou solidificada nos seus filhos e netos, nos seus atos e nos seus...

Hoje conto setenta e sete anos. Escrevo fragmentos de sua história para relembrar. Isso me faz bem ! Certamente tenho muito dela perto de mim, dos meus filhos, netos e bisneto (Bruno). Às vezes titubeio ao olhar as coisas da vida, a lembrança me alimenta e alivia meus anseios e meus sonhos.

Diria neste momento: o que tenho ainda para levar dessa vida ? certamente ela responderia , a continuidade dela que se perpetua nos nossos andares e convívios, e acima de tudo, na relação de construção do cotidiano, que deve ser vivido na simplicidade de quem só quer viver e ser feliz.

Maria Basílicia está presente em nós ! È continuidade... é mulher moça, roceira, amada , vivida/viveu , é cidade , é espaço e tempo presente , é mãe, é avó, é temporalidade cotidiana. E hoje, é tributo. Muito mais que luz de candeeiro, é constelação nos meus sonhos e acalantos.

JAIRO DIAS NOGUEIRA

Professor

Pelotas, RS , agosto de 2001

jaironogueira@noradar.com

jairod@brturbo.com

 

OUTRO TEXTO QUE ACHEI INTERESSANTE  SOBRE HISTÓRIA DE VIDA, EDITADO NO LIVRO HISTÓRIAS DE TRABALHO 

DOSES DE RAIVA

Áurea Miranda*

Tarde cinzenta, rua esburacada, a trovoada competindo com o bafo do sol espreguiçado, eu esquivava dos cães, assobiando, escondendo o medo, deglutindo a raiva. Já percorrera aqueles trezentos metros pela segunda vez, chutando pedra, abrindo e fechando o guarda-chuva. As poças de barro, a noite vizinha, os moradores desconfiados atr´s das cercas, o braço pesando...e nada do 327. Uma dose !

Coisa que me envenena é visitar ruas cujas casas não são numeradas pela ordem - não é lei ? Quando a gente pensa que depois do 104 vem, naturalmente , o 108 ou o 112, acontece, na placa padronizada ou na lasca de madeira com tinta de sapato, o 215, o 603 ou até o 26. "É que antes a rua começava lá em cima, sabe?...Parece que tem lógica. Tal como alguém haver "acertado no bicho", ter copiado o número de trás para frente, resolver trocar porque a avó morreu ali ou o marido foi embora. E dá a impressão de que as pessoas se orgulham dessa autodeterminação aleatória - porque todo mundo se conhece, ninguém se engana, eles se entendem, e quem é de  fora não é bem-vindo: "É da polícia ou tá cobrando conta?..."

- Estou procurando o 327...a senhora , por acaso...

Eu conhecia o olhar e sabia que a pergunta vinha:

- Procurando quem ?

- A casa número 327.

A resposta cabia no padrão: só se fosse do outro lado...ou depois da esquina..."Que esquina ?" Devia ter, mas fizeram  casa no beco da rua - quem morava sabia.

- Olha, pergunta no armazém, que o Neco entende de tudo aqui.

- E onde é o armazém ?

- Lá, ó ! ta bem grande:  ARMAZÉM E BAR DO NECO. Se o Neco não tá, a filinha também sabe.

- Mas que idade tem a filinha...?

- É a mulher dele, não sei quantos anos...

A Filinha, entendi. E desço novamente a rua, porque o armazém - "Como é que a fiscalização registra "isto" como bar e armazém ? Nem deve ter alvará..." e a voz do Cazuza me interrompe: "A burguesia fede..." - fica depois - ou antes - do primeiro barranco, onde quase inaugurei um escorrega, valendo mais uma dose.

- Boa tarde ! Eu estou procurando...

-...tarde !

- Ah ! ...o seu Neco está ?

- Não, mas pode falá , que sô a mulher dele.

- Dona Filiha ? A vizinhança me disse...é que estou procurando o 327 nesta rua e já andei pra cima e pra baixo...a senhora sabe se existe alguma casa...?

-...que falá com quem ?

O olhar ficou incisivo, o tom áspero, eu vendo a lua na trilha resolvi não protelar: "Estou procurando o senhor Hermenegildo Assunção Correia..."Veio o corte: Pra quê ?"

Não tinha mais jeito. Enchi o peito, puxei a identidade: " Sou Oficial de Justiça  e tenho um mandato de penhora contra Hermenegildo Assunção Correia, que, segundo consta , deveria morar nesta rua, no 327..."

Ela gritou para os fundos:

- Neco ! tem justiça aqui, anda !

E lá veio o homem, que bem passava por avô de Filinha, arrastando uma perna menor, a bengala de taquara com remendo de trapo, o cigarro apagado, preso entre as cáries:

- Pois , não

Ia repetir, mas não foi necessário: era o próprio. E o 327 era ali.

A raiva escorreu, enquanto olhei as duas garrafas de cachaça na prateleira, as oito bananas e os três pães de meio sobre o balcão. Examinei o mandado, o homem no susto, a mulher encarando, e, apesar de tudo - era meu dever -, comecei a explicar a dívida, a cobrança o processo. Ele sacudia a cabeça, coçava a barba, e assim continuou quando eu calei.

Dava pra ver que não havia o que penhorar e seria suficiente uma certidão a respeito. No entanto, aceitei um copo de água, acendi um cigarro e fiquei ouvindo: era o mínimo que podia fazer por nós três.

Trezentos e vinte e sete era o nome do bar onde ele cantava , no interior, quando violeiro. Já não via um instrumento há mais de - quantos ? - anos: mostrou os dedos tortos - reumatismo infeccioso: o médico garantiu que não tinha cura, ele ainda tentou as benzidas e uns trabalhinhos pro "santo", ms pelo jeito, o doutor tinha razão, e tudo o que podia fazer era continuar com a arnica, pois até aliviava. Botou o mesmo número no armazém para dar sorte, só que, por enquanto...Não que tivesse azar pois "o bom Deus" não o abandonava: ainda na semana passada, o filho mais velho - dezesseis anos - tinha sido recolhido "para os menores", e com certeza ia ficar mais um tempo, desta vez longe do cheiro da cola. De momento , crescia de dinheiro, mas também era só, e só porque a menina pegara sarampo, a mulher perdera o último num aborto nervoso durante o temporal, ele nem sabia que devia para a Ordem dos Músicos: nunca havia sido músico de verdade, apenas arranhava  as cordas para distrair a freguesia, e há tanto tempo..."Coisa engraçada: eu, músico ?...como Roberto Carlos, um Caetano, um...meu Deus !...E tão sem dinheiro, logo nessa hora ! - mas, homem honesto, de devia, pagava, tinha Deus do seu lado e era tudo questão de melhorar de vida, o que já estava para acontecer: o irmão caçula ia chegar com a família, pra dar uma força.

- Eu tava agora mesmo consertando o telhado, que ele deve tá por vir aqui amanhã, o mas tardar...Qué vê?

Fui , claro. E até fumei outro cigarro, fingindo admirar a obra incrível que o velho pretendesse acomodar naquela pecinha - quarto-sala-cozinha-depósito-de-carvão- os oito que seriam, fora a gravidez da cunhada. Mais incrível, a sua alegria, o entusiasmo prevendo o futuro mais fácil: o mano sabia dirigir carroça, o compadre emprestaria a sua para trazerem verduras da feira, já vinha o pão mais barato, um pouco de lingüiça defumada - "que não precisa de gelo" - um vinho de garrafão, milho de pipoca e até rapadurinhas...- os olhos espelhando o discurso de felicidade. Até a Filinha, faceira, sorriu - esquecendo a coceira da pequena choramingando - e eu, vendo sua boca tapera, concluí mentalmente: não deve sofrer a tentação de mastigar.

Já era noite, o Neco fez questão de me acompanhar até o ônibus, quatro quadras acima, a perna curta perseguindo a bengala remendada, "porque a zona está meia braba" , mas todos o respeitavam, e a mulher endossou, com a alma brilhando nos olhos orgulhosa, de certo fazendo o arremate na história do dia, que o marido recriara também do seu jeito, cumprimentando os vizinhos, mostrando a nova lâmpada no poste da encruzilhada, vencendo a lama com esperança  de um próximo dia de sol. E eu recapitulando, tentando entender como eles seriam capazes  de todos aqueles milagres, cada frase entre o nome de Deus - no projeto e no agradecimento: velhos, feios, ignorantes, miseráveis...e sorrindo.

Então, sim, veio uma raiva mais funda, pensando em como a idéia de Deus continua alimentando a pobreza, a injustiça, a indignidade, a resignação, atrelando a religião a um caleidoscópio de investimentos, para sustentar as lacunas da responsabilidade social

* Áurea Miranda, aposentada

(Texto do livro - Histórias de Trabalho - 5ª ed. -1998 - Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura Municipal de Porto Alegre)